O homem e a mancha

O homem e a mancha

sábado, 15 de outubro de 2011

Cida Moreira em A dama indigna

 
Cida Moreira é uma das maiores atrizes a que já tive o prazer de ouvir cantar. Sim, porque chamar Cida de cantora, apenas, é ser impreciso. O que ela faz não é só cantar, mas transmitir de tal maneira e com tal riqueza de intenções as canções que interpreta, que eu, que sou ator, fico invejando admirado o incrível e riquíssimo arsenal de sutilezas que ela decanta. Quem já ouviu Sympathy for the devil, por exemplo, na vibrante voz de Mick Jagger, fica surpreso com a quase-doçura-assustadora com a qual Cida a interpreta. Ou Summertime, um dos maiores clássicos da canção do século XX, que Cida consegue reinventar de maneira comovedora.
Assistindo ao show de Cida no Studio Clio, por várias vezes fui levado às lágrimas: as palavras que ela pronuncia parecem, como que pela primeira vez, fazer sentido, mesmo que já as conheçamos. Foi assim com Maior que o meu amor, que de tão sincera na interpretação de Cida, faz com que se torne a versão definitiva para essa linda canção. Ou com O ciúme, de Caetano Veloso, de uma beleza engasgante.
Não dá para falar de momentos altos do show, porque todos eles são magnéticos: Cida nos prende com sua presença segura e rasgadamente teatral. Há ainda a delicada direção de Humberto Vieira, que dá à Cida atriz-cantora alguns momentos impagáveis, como quando espatifa uma taça no chão do palco, ou quando beija uma rosa para em seguida esmagá-la entre os dedos, jogando os fragmentos em direção à plateia, como quem diz "peguem, este é o corpo de Cida", numa debochada paráfrase cristã. E Cida, como ela própria admite, se revela 100% no repertório de A dama indigna. The man I love e Canção desnaturada são as maiores provas disso: é quando Cida fala de seus maiores amores, utilizando o que de melhor sabe fazer para expor suas entranhas apaixonadas.
Só para finalizar, mas sem esgotar o conteúdo do show, é preciso mencionar a divertidíssima recriação vocal para Sou assim. Ou do mega sucesso Back to black, que com Cida ganha contornos waitsianos-brechtianos (e poderia ser diferente?).
Foi um privilégio ter assistido novamente a essa grande, grande cantora brasileira, a quem eu tenho o prazer de conhecer fora dos palcos também. Essa escorpiana (minha colega de signo) tem a chama rara da arte completa. Os cabelos avermelhados de Cida são como que a ponta do iceberg desse talento, que parecem assinalar a paixão que a queima. Parabéns Cida e Humberto, vocês são demais.

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