O homem e a mancha

O homem e a mancha

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Breves entrevistas com homens hediondos

O aclamado livro de David Foster Wallace já foi adaptado para o cinema em 2009 (http://www.imdb.com/title/tt0790627/) e, segundo alguns comentários que li, não foi muito bem sucedido. Um dos argumentos dessas críticas pouco favoráveis é a dificuldade que a adaptação de textos literários encontra na transposição para outra linguagem. Isso não é novidade: desde sempre soubemos que um romance ou conto quando transposto para uma linguagem eminentemente imagética como é o cinema tem que encontrar a maneira mais adequada de resumir/sintetizar/adaptar o gigantesco número de palavras que uma narrativa literária traz e transformá-las em movimentos sensoriais. E não basta apenas adaptar, é necessário eleger, frequentemente, uma abordagem das inúmeras que existem potencialmente. Em poucas palavras: não dá para colocar o livro inteiro no filme (ou no palco).
Meu amigo cineasta Fabiano de Souza já adaptou um romance de Dyonélio Machado (O louco do Cati) para o cinema, dando origem ao longa metragem A última estrada da praia. Leia o livro e veja o filme (que estreará no dia 16 de setembro no Cine Santander, em Porto Alegre, a propósito), e confira que do romance original de Dyonélio há bem pouco, muito pouco. E em minha opinião, isso não é algo para se contestar: duas linguagens distintas geram duas obras diversas.
Algo semelhante ocorre quando se adapta uma obra literária para o palco. Nos últimos anos, Porto Alegre viu algumas dessas experiências, como o excelente O sobrado, do Grupo Cerco, onde a transposição de Erico Veríssimo encontrou a atmosfera apropriada. E agora o Teatro Sarcáustico apresenta Breves entrevistas com homens hediondos, a partir do livro de contos de Wallace.
Minha relação com esse livro começou em 2005, quando a atriz Elisa Viali me entregou o volume de contos me dizendo "Tu vais adorar, acho que tem a tua cara e dá pra adaptar pro teatro". Levei o livro pra casa, li, mas não me entusiasmei muito, pois achei que era eminentemente narrativo, ou seja, não sugeria praticamente ações, limitando-se a alguns homens falando, contando, coisa excelente numa leitura, mas perigosa em um palco. Devolvi o livro pra Elisa e ficamos assim.
O Sarcáustico certamente enfrentou a mesma limitação narrativa, mas o que eles fizeram foi, de fato, apostar na força das palavras, das imagens criadas pelas palavras, muito mais do que naquelas construídas teatralmente. É claro que existem transições, costuras, e pontuações teatrais que povoam a encenação, mas desta vez o grupo investiu em outra forma. Conseguem dar dinâmica, beleza e contundência às palavras de Wallace. Se em Wonderland a espetacularização era quase carnavalesca, até pelo espaço cênico estilo passarela, em Breves entrevistas... o espaço mínimo do Teatro de Arena induz à introspecção, à contenção. Em Wonderland havia o brilho cegante da luz, em Breves entrevistas..., a sombra.
Em um espetáculo de 2 horas de duração, é difícil manter o alto nível de interesse, e isso acontece no novo espetáculo. Há momentos de baixa, que felizmente é logo superada pela qualidade e entrega dos atores, e através das soluções simples mas eficientes. Se fosse colocar em apenas uma frase, diria que o Sarcáustico é um grupo que não tem medo de errar, é um coletivo de jovens com ideias interessantes sobre teatro, e que parecem saber colocar esse mundo caótico em que vivemos sobre o palco.
É claro que Daniel Colin tem muita responsabilidade sobre o que se viu, sendo ele uma espécie de agregador talentoso, com uma vasta cultura pop (principalmente) e muito antenado ao mundo contemporâneo. Mas a cena emblemática da encenação, em minha opinião, é a primeira, de Johnny Bracinho, interpretada por Rossendo Rodrigues sob a direção de Daniel. Não por ser apenas chocante em sua sinceridade e ironia, mas pelo trabalho de Rossendo, que realmente dá um show. Ricardo Zigomático e Guadalupe Casal completam o elenco, com trabalhos igualmente intensos e de entrega inequívoca. (Atenção para o Ricardo, muito promissor como encenador).
O jorro de palavras que se vê sobre o palco confirma aquilo que alguns insistem em negar: que dizer bem um texto é indispensável; e que ação física não é apenas acrobacia e marcações dinâmicas, mas falar, também. E o Teatro Sarcáustico confirma sua posição como um dos grupos mais importantes de Porto Alegre.

2 comentários:

  1. Brigado pelo retorno, Marcelo! Adorei vê-los na plateia e acho que tu resumiu a gente bem: não temos medo de errar! Acreditamos no erro e crescemos com ele! Que venham mais e mais erros incríveis e que eles tragam acertos brilhantes!!! Abraços!!!

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  2. Que maravilha de texto, Marcelo, parabéns! Abç

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