O homem e a mancha

O homem e a mancha

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Cisne negro/Fatalidade


Tudo indica que Natalie Portman vai levar o Oscar de Melhor Atriz neste ano, interpretando a perturbada bailarina Nina Sayers, que em busca de uma performance perfeita no balé O lago dos cisnes, com música do compositor russo Tchaikovsky, enlouquece e passa a encarnar o Cisne Negro do título, em contraponto ao Cisne Branco que já interpretava. Se Natalie confirmar seu favoritismo no Oscar, não será a primeira vez que um ator recebe o prêmio interpretando um artista dividido entre a ficção e a realidade. Ronald Colman foi premiado em 1947 pelo filme Fatalidade, dirigido por George Cukor, no papel do ator Anthony John, que se deixa influenciar profundamente pelas personagens que desempenha nos palcos. Por exemplo, ao protagonizar uma comédia, John torna-se o mais bem humorado dos homens. No entanto, quando é convidado a dar vida ao papel título da tragédia shakespereana Otelo, as coisas tomam proporções terríveis, pois o ator passa a encarnar a violência de Otelo contra uma mulher com quem teve uma aventura amorosa.
Quem faz teatro sabe que a possibilidade de se deixar contaminar tão profundamente pelas personagens a quem damos vida é remota, exceto nos casos de perturbação mental. Obviamente que, de alguma forma superficial, as emoções muitas vezes intensas que concretizamos sobre o palco deixam um levo rastro, seja um leve mau humor, seja uma euforia. Mas qualquer um com um mínimo de sanidade mental sabe deixar para trás a personagem; e, se isso não ocorresse, estaríamos lotando os hospícios e clínicas psiquiátricas. Essa pergunta reincidente que é feita por apresentadores de TV mal informados de "como é interpretar tal personagem, isso não te deixa mal?", carece de conhecimento de causa.
Essas observações de maneira alguma tiram o mérito de filmes como o de Darren Aronofsky e o de Cukor. Existem casos extremos em que atores ou bailarinos podem deixar-se contaminar nessas proporções, e isso só confirma a extrema habilidade com que foram construídas essas tramas. Tenho lido comentários de pessoas ligadas à dança que não gostaram de Cisne negro pois acharam distante da realidade a maneira como o dia a dia dos bailarinos é retratado. Não acho producente aferrar-se a detalhes ínfimos do tipo "a bailarina tal não faria isso", já que o que está em primeiro plano é a deformidade psicológica de Nina Sayers e sua descida aos infernos, e é isso que o filme de Aronosfsky retrata com impactante densidade.

Um comentário:

  1. Vi o filme hoje marcelo e concordo contigo: é sofrimento psíquico muito bem retratado.

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