O homem e a mancha

O homem e a mancha

domingo, 26 de julho de 2015

CONCENTRAÇÃO

É preciso concentração para montar um espetáculo teatral sem verba. E foco, e crença na arte, e bom humor, e ombros amigos. E cheque especial. Foi o que aconteceu com a equipe do espetáculo Concentração, contemplado com o Prêmio de Incentivo à Pesquisa Teatral no Teatro de Arena, mas que, dada a alarmante situação do Rio Grande do Sul, teve adiada a liberação do dinheiro, por parte da Secretaria da Fazenda (que é quem detém o poder de pagamento) para depois da estreia. A diretora Ana Paula Zanandréa informava, na conversa com o público depois do espetáculo do dia 25 de julho, que finalmente assinara o contrato, e que, se tudo desse certo, o prêmio seria pago em breve.
A foto que ilustra esta postagem, e que está disponível na internet, não representa o que assisti no Teatro de Arena: é certamente uma imagem de divulgação. Os elementos cenográficos e os figurinos sofreram algumas transformações e aperfeiçoamentos em seu acabamento desde esta imagem. Mas o que quero ressaltar é a provável adaptação/subversão às quais as propostas visuais do espetáculo foram obrigadas, em função do atraso no pagamento do prêmio a que a equipe tinha direito.
Visualmente o espetáculo é muito simples, e provavelmente em função da insegurança sobre a verba prometida, optou-se por um emagrecimento das possibilidades, investindo intensamente no trabalho dos atores e na vivacidade da dramaturgia. Em minha opinião, tal investimento foi um acerto, já que é fato que "beleza não põe mesa", mas tenho certeza de que não há artista que não acredite que a beleza é também importante.
A dramaturgia do espetáculo, atribuída ao grupo, adaptou um romance da escritora belga Amélie Nothomb, de 2005, chamado Acide sulfurique. Como não conheço a obra (e mesmo que a conhecesse), sigo o conselho do escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, que defende que em uma adaptação de uma linguagem para outra deve-se ignorar a linguagem e a obra-modelo, e apreciar exclusivamente a obra-fim: esta deve sustentar-se por si, e ser entendida como autônoma em seus procedimentos. Assim, Concentração apresenta-se, dramaturgicamente falando, como uma obra de pernas firmes, fazendo esquecer que se trata de uma versão dramática de uma narrativa épica. A vivacidade e o dinâmico encadeamento das situações, calcadas inteiramente em uma estrutura dramática (e não pós-dramática, como seria uma possível opção), constroem uma coerência muito bem fundamentada e interessante para o espectador.
Confesso que, nos primeiros minutos do espetáculo, temi que a história da prisoneira Zena (atuada por Priscilla Colombi), que é escolhida para ser uma kapo (nos campos de concentração da Alemanha nazista, kapo era o prisioneiro alçado a "gerente" dos outros presos, responsável por manter a ordem e a disciplina, e cobrar produtividade, se fosse o caso), se encaminhasse para uma espécie de sub-Jogos vorazes, em que a heroína surge como a salvação de toda uma sociedade. No entanto, esse temor logo se mostrou infundado, mesmo que a ideia do reality show (tão cara e reincidente em nossos dias, desde o 1984 de George Orwell) seja o motivo principal que faz a história andar. Em Concentração não há uma heroína com um mundo a ser libertado, mas uma denúncia da exploração midiática da miséria e da violência. O show de Truman, filme de Peter Weir, é uma aproximação mais adequada, assim como Estamos no ar, texto teatral do chileno Marco Antonio de la Parra: o "vilão" é a televisão, ou melhor, os executivos que a dirigem.
Pelos motivos financeiros que expus acima, há uma certa dificuldade na concretização de algumas ideias, relacionadas principalmente ao trabalho dos prisioneiros. Se por um lado a solução do barulho das máquinas de costura é eficaz, por outro, os panos manipulados não atingem plena resolução, até pela variedade de cores e tamanhos. A trilha sonora, um pouco prejudicada pelo abafamento do equipamento do teatro, também me parece merecer mais atenção, assim como a concepção e a execução de alguns figurinos.
Para o final, a cereja. O trabalho dos atores, totalmente absorvidos pela insana necessidade de literalmente desdobrar-se em muitos, é o maior destaque. O ritmo cinematográfico de cortes constantes na narrativa, bem como a apresentação de imagens que, em sucessão, nos transportam a diferentes lugares e situações em uma fração de tempo, são ótimas escolhas. O recurso de retroceder a imagem (rewind) várias vezes, de excelente efeito cênico, e a crítica aos castings aos quais os atores se submetem (inclusive o vocabulário utilizado; esta, sem dúvida, uma private joke) são momentos memoráveis. Priscilla Colombi, Miriã Possani, Frederico Vittola, Pedro Nambuco e Sofia Vilasboas, guiados por Ana Paula Zanandréa, demonstram todo o frescor de atores convictos de suas escolhas, e oferecem aos espectadores pulsantes performances. Ana Paula, em sua segunda direção, aponta para um tipo de encenação fortemente calcada na fisicalidade, sem no entanto abandonar a palavra como importante recurso expressivo. Não sei se esse agrupamento de artistas já tem um nome. Se não, merecem ser batizados e têm desde já o compromisso com os espectadores que, como eu, aguardam o amadurecimento e a continuidade artística desse promissor grupo de artistas da cena.

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