O homem e a mancha

O homem e a mancha

sábado, 25 de outubro de 2014

OS HOMENS DO TRIÂNGULO ROSA: crítica de Antônio Hohlfeldt

 
O crítico teatral Antônio Hohlfeldt, que escreve semanalmente para o Jornal do Comércio de Porto Alegre, assistiu Os homens do triângulo rosa e publicou sua crítica no dia 24/10/2014:
 
O melhor do ano, inequivocamente
 
"O palco do Theatro São Pedro viveu um fim de semana excepcional, quando ali foi apresentada a peça Os homens do triângulo rosa, criação dramatúrgica dirigida por Margarida Peixoto, a partir dos textos Bent, de Martin Sherman, Triângulo rosa: um homossexual no campo de concentração nazista, de Rudolf Brazda e Jean-Luc Schwab, e Eu, Pierre Seel, deportado homossexual, de Pierre Seel. Não tenho dúvida em afirmar que se trata do espetáculo mais importante da temporada, o melhor trabalho a que assistimos, dentre todas as produções de Porto Alegre que cumpriram ou cumprirão temporada entre nós neste ano. Um trabalho exemplar e inesquecível, de Margarida Peixoto, corajoso e fundamental. Ainda que o assunto central alegadamente seja a questão do modo pelo qual os nazistas trataram os homossexuais nos campos de concentração, na verdade, o tema principal é a maneira pela qual o amor pode surgir, afirmar-se e vencer, entre duas pessoas, mesmo nas piores circunstâncias de vida. Esta é a grande e emocionante lição, e por isso Os homens do triângulo rosa merece um lugar muito especial na relação de espetáculos a que tenho assistido ao longo dos anos. A ficha técnica menciona três textos, mas confesso que senti basicamente dois, aquele anterior ao campo de concentração, em que impera a descoberta do medo e a necessidade do esconder-se e, depois, aquele da sobrevivência no campo, quando a vitória do amor se sobrepõe a tudo o mais.
O trabalho de Margarida Peixoto não se afirma apenas pela escolha dos textos e do tema, mas também pelas soluções cênicas encontradas. Por exemplo, a sequência em que os dois personagens descobrem que, pela força e o efeito de suas palavras, podem vencer a extrema vigilância que paira sobre eles e se relacionarem amorosamente, é antológica e inesquecível. Mais que isso, ecoa na sequência final, após a morte de um deles, quando o outro assume sua identidade e sua parte na grande tragicomédia que então se desenrolava na Europa e em seus campos de concentração, com que o espetáculo se encerra.
Com duas horas de duração, que poderiam ser muito pesadas, diante do tema escolhido, ao contrário, o espectador, em que pese sinta-se oprimido pelo que assiste, segue com absoluto interesse e suspense o que ocorre no palco, de tal sorte que o espetáculo se desenrola sem perda de qualquer minuto de atenção. Contribui para isso a opressora cenarização de Yara Balboni, os figurinos de Antonio Rabadan, a trilha sonora de Marcelo Ádams, que desenvolveu novas letras sobre composições de Kurt Weill e inclusive sobre o hino nacional alemão, em outro momento verdadeiramente dramático da encenação. Destaque-se ainda a correta preparação corporal de Angela Spiazzi (que permite os atores transportarem tantas pedras em cena, e manterem-se, ainda assim, em pé, ao longo dos chamados três minutos de descanso), e mais a preparação vocal, a cargo de Ligia Motta (a atriz Gisela Habeyche) e a dos demais atores, de Marlene Goidanich. Destaque-se, ainda, na segunda parte, a humilde, mas decisiva interferência da pianista Elda Pires, que define todo o ritmo deste segundo momento da encenação.
Definitivamente, contudo, é o ator Marcelo Ádams, como o homossexual que faz qualquer negócio para sobreviver, mas que aos poucos descobre o verdadeiro amor, que merece todo o nosso respeito e nossas homenagens: é seu melhor trabalho. Adams incorpora profundamente o personagem, sofre com ele e se emociona com ele, emocionando a cada um de nós, na plateia. A seu lado, os dois parceiros, o que vive o bailarino e, enfim, o que vive o prisioneiro que acaba morrendo a seu lado. Mas, de modo geral, todos os demais intérpretes evidenciam uma perspectiva de grupo que raras vezes se vê, sobretudo em espetáculos desta natureza.
Em síntese, por tudo e em tudo, a Cia. Teatro Ao Quadrado, de Margarida Peixoto e Marcelo Ádams que, ao longo dos anos, tem-nos propiciado a descoberta de excelentes textos dramáticos, agora se superou. Que bom para nós."

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