O homem e a mancha

O homem e a mancha

domingo, 3 de agosto de 2014

CAVALOS NO CINEMA

Dois grandes filmes, que têm em comum alguns elementos. O mais óbvio é a referência a cavalos: A noite dos desesperados (1969), que é o título um tanto inadequado que recebeu no Brasil o longa They shoot horses, don't they? (em livre tradução, algo como Eles sacrificam cavalos, não é?), dirigido por Sydney Pollack a partir da novela de Horace McCoy; e O cavalo de Turim (2011), do cineasta húngaro Béla Tarr. O que mais os aproxima? No filme norte-americano, a maior parte da ação acontece durante uma maratona de dança, na Califórnia de 1932, em plena Depressão. Dezenas de casais dançam pelo prêmio de 1500 dólares, durante semanas sem parar, desmoronando seus corpos e suas ilusões perante uma entusiasmada plateia que paga ingresso para ver os competidores lutarem pela vitória. Não faz lembrar um pouco os atuais reality shows televisivos?
O cavalo de Turim é um dos filmes mais belos e artisticamente rigorosos a que já assisti. Ambientado na Hungria "profunda" do final do século XIX, o filme tem como ponto de partida uma história real ocorrida com o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, em 1889: estava ele na cidade italiana de Turim quando presenciou um cocheiro espancando, em plena rua, um cavalo que se negava a andar, por cansaço. Vendo a agressão, Nietzsche aproximou-se do cavalo e empurrou o cocheiro, abraçando-se ao pescoço do animal e caindo no choro. Encontrado por um amigo, o filósofo foi levado para casa, onde permaneceu dois dias em completo silêncio, como que catatônico. Ao fim desse período, Nietzsche jamais voltou ao estado normal, permanecendo os seguintes dez anos de sua vida, até sua morte, demente e dependente da mãe.
A obra-prima de Béla Tarr cogita o que teria acontecido ao cavalo de Turim, que seria o detonador da crise nietzschiana. Em um fascinante exercício de ficção, o filme nos coloca frente a frente com três personagens: um pai de 58 anos, sua filha, e o cavalo, vivendo em uma paupérrima propriedade rural. Com quase 150 minutos de duração, em uma extraordinária fotografia em preto e branco, divididos em 30 planos-sequência que repetem, sob variados enquadramentos de câmera, o repetitivo cotidiano dessas três figuras, O cavalo de Turim é uma experiência inesquecível que fala sobre o tempo. E também sobre algo que o liga, de alguma forma, ao filme de Pollack: a crise advinda das péssimas condições no campo.   

 

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