O homem e a mancha

O homem e a mancha

sábado, 30 de novembro de 2013

FRANKY/FRANKENSTEIN: UM BISTURI NA MÃO E UMA IDEIA NA CABEÇA

A nova produção de teatro para crianças do Teatro Sarcáustico, Franky/Frankenstein, se alimenta - como é usual na trajetória do grupo porto alegrense que estás prestes a completar 10 anos de atividades - da cornucópia inesgotável de referências pop do mundo contemporâneo. Desta vez, o Sarcáustico recuou um pouco mais no tempo (não uma novela de Stephen King ou o filme dela adaptado, como em Jogo da memória; tampouco a vida de Michael Jackson e de outros astros pop do século XX, como em Wonderland e o que M. Jackson encontrou por lá), e foi buscar material em uma das mais célebres histórias de horror já produzidas: o romance Frankenstein, de Mary Shelley, escrito no começo do século XIX. Transformar uma obra-prima gótica em uma história para crianças é uma proposta tão inusitada quanto arriscada, mas o Sarcáustico se sai bastante bem.
Como é anunciado pelos atores ao final da sessão, trata-se de uma produção independente, sem nenhum financiamento público que banque as despesas próprias de uma produção teatral, o que evidencia-se na simplicidade dos elementos visuais do espetáculo, como cenografia e figurinos. Simplicidade, no entanto, não é, jamais, sinônimo de precariedade, já que os criativos e funcionais figurinos de Fabrízio Rodrigues dão conta das necessidades, brincando com uma estética preto e branco, típica dos filmes de horror do estúdio Universal dos anos 1930 e 1940, de onde saíram as primeiras versões cinematográficas de personagens como Drácula, Múmia, Lobisomem e o próprio Frankenstein.
Porém, como trata-se de uma produção sarcáustica, o grupo cita a referência original a partir do filtro de outro grande apreciador dos fenômenos pop: o cineasta Tim Burton, que em vários de seus filmes (desde o curta metragem Frankenweenie, passando por longas como Os fantasmas se divertem, Ed Wood, Edward Mãos de tesoura e Sombras da noite) traz personagens desajustados, que têm dificuldades no convívio com seres humanos "normais". Assim, Franky/Frankenstein aproveita, de Mary Shelley, a história do monstro criado a partir de pedaços de cadáveres por um cientista (Dr. Victor Frankenstein) que queria sentir-se como Deus, ao dar vida a carne morta. Mas em lugar de braços, pernas e cérebro, o menino Frankenstein (Vitinho para os mais chegados) retira das crianças da plateia um nariz com ranho, uma orelha com cera, cabelos com piolhos, barriga com vermes e um pé chulepento para criar sua criatura; e o objetivo não é ser Deus, mas ter um amigo (Vitinho é um nerd, "apesar da palavra ainda não ter sido inventada na época").
Como fica claro, o humor é a principal arma do espetáculo, através da dramaturgia (coletiva do grupo) que debocha de situações aterrorizantes, abraça uma estética de histórias em quadrinhos e uma constante metalinguagem, esta, incomum para espetáculos de teatro infantil.
Com apenas dois atores (Guadalupe Casal e Ricardo Zigomático) que dão vida a algumas personagens cada um, o espetáculo é uma bela surpresa, e, confesso, é o tipo de peça para crianças que me atrai como espectador: aquela que não deixa um adulto, como eu, indiferente, já que as situações e piadas contemplam, muitas vezes, pelo menos duas camadas de significado: uma mais acessível a crianças pequenas, com menor bagagem cultural, e outra que cita, como já disse, filmes de horror clássicos e cenas de filmes que fazem parte da história do cinema. É assim, por exemplo, com a trilha sonora, grandemente calcada (se não integralmente) em trilhas compostas para filmes de Tim Burton (Danny Elfman, aquele gênio do Oingo Boingo, é responsável por elas). Até mesmo a clássica coreografia da mesa de Os fantasmas se divertem (Beetlejuice) aparece para nos divertir.
Guadalupe e Ricardo estão muito bem, divertem-se em cena, até mesmo com os imprevistos que fazem parte da live action. Ricardo é um belo improvisador (não um improvisador belo, não foi o que eu quis dizer), e seu jogo com a plateia é cativante, além do típico humor do grupo, que domina muito bem. A iluminação de inspiração expressionista combina perfeitamente com a encenação. A única coisa que acredito que poderia ser melhor executada é a trilha sonora: não pela escolha das músicas e sonoridades, mas pela reprodução, que é baixa em volume, e deixa de ser ainda mais atrativa, como poderia. As trilhas sonoras de Danny Elfman são ricas em seus arranjos orquestrados, e mereceriam uma maior amplificação.
Daniel Colin é um diretor muito criativo, e isso vem sendo comprovado com sucessivas montagens que ele comanda. Aqui, novamente, vemos um tipo de teatro alegre, debochado, mas respeitoso com as crianças. Parabéns ao Teatro Sarcáustico por mais uma montagem bem sucedida!

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