O homem e a mancha

O homem e a mancha

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

UM CERTO CAPITÃO VERISSIMO: A VISÃO DE ANTÔNIO HOHLFELDT


Crítica escrita por Antônio Hohlfeldt, publicada na edição de 25 de janeiro do Jornal do Comércio. O espetáculo analisado, Um certo Capitão Verissimo, do qual faço parte do elenco, estreou em dezembro de 2012 no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, e fez mais duas apresentações em janeiro, no Teatro do Sesc. Deveremos voltar a cartaz em breve, em algum outro teatro de Porto Alegre.

Belo encontro de Deborah com Erico
Antes de embarcar para Mont-pellier, onde agora me encontro, ainda tive tempo de assistir à bela homenagem que a diretora e atriz Deborah Finocchiaro presta ao escritor Erico Verissimo que, como já escrevi em coluna anterior, ainda recente, neste mesmo jornal, se tem tido má sorte no cinema, tem alcançado bons resultados no teatro.
Um certo Capitão Verissimo resulta de uma pesquisa em torno da vida e da obra do escritor de Cruz Alta, mesclando uma seleção de textos do escritor, referências a sua vida e uma série de comentários musicais, o que faz do espetáculo do grupo Companhia de solos & bem acompanhados um trabalho criativo e interessante, na medida em que foge da interpretação canônica do autor, de certo modo renovando-o em sua leitura.
O elenco inclui a própria Deborah Finocchiaro, a quem tenho acompanhado desde a sua formatura no Departamento de Arte Dramática da Ufrgs, sempre exuberante, visceral e profundamente emotiva e emocionante. A seu lado, estão Denise Fontoura e Elaine Regina, Leandro Roos Pires e Marcelo Adams, este em uma série de corporificações verdadeiramente tocantes. Denise Fontoura, com Deborah Finocchiaro, ainda se ocupa das interpretações vocais, alternando-se todos em diferentes instrumentos musicais, o que empresta ao trabalho uma variedade e uma atenção constante do espectador.
A concepção original, da atriz e de Paulo Mauro, que assina a direção, sintetiza na figura do “capitão” a importância e o significado do intelectual Erico Verissimo e do escritor. O final do espetáculo, com a citação de uma passagem inicial de Solo de clarineta, o primeiro volume de suas memórias, não deixa dúvidas sobre o motivo pelo qual os artistas escolheram Erico para este trabalho: sua singular militância, não político-partidária, mas essencialmente humanística, que reconhece e assume a importância e o papel social do escritor, sobretudo em sociedades com grandes diferenças sociais ou que enfrentou ao menos duas ditaduras, como foi o caso de Erico Verissimo. No entanto, o que mais me chamou a atenção, no espetáculo, foi o fato de se ter privilegiado o livro de estreia de Verissimo, o conjunto de contos de Fantoches que, se o escritor não renegou (ao contrário, participou de uma bela edição facsimilada anotada em suas margens por ele mesmo), nem sempre valorizou. É certo que ali está o cerne da trilogia de O tempo e o vento, como eu e outros de seus estudiosos já apontamos. Mas o tratamento dos temas ainda é superficial, pois se trata do aprendizado do escritor. Talvez o que tenha atraído o grupo é que alguns dos textos aparecem na forma dramática, o que, certamente, facilitou a transposição para o palco. Mas há textos fracos, quase anedóticos, apenas, e este é o aspecto menos bem realizado da encenação, mas salvo isso, Finocchiaro e Paulo Mauro seguiram a ojeriza de Erico ao machismo e brincam com o tema, em passagem que me pareceu um pouco forçada, mas que não chega a desarticular o espetáculo.
As composições musicais da própria atriz são inspiradas e revelam outra faceta da artista, quer como compositora, quer como intérprete musical. O cenário de Vicente Saldanha é inspirado e cria um belo clima logo na abertura da cena, enquanto os figurinos e adereços, pesquisados pelo grupo, atendem às necessidades da linha de encenação.  
Das manifestações escritas, expressões do público sobre o trabalho, destacam-se duas: o reconhecimento da importância de Erico e a qualidade do espetáculo. Junto as duas: é importante que Erico não seja esquecido. Importante para nós, bem entendido. É fundamental que as novas gerações descubram e releiam Erico, sempre. Isso fará bem para todos nós. Neste sentido, o grupo liderado por Deborah Finocchiaro está de parabéns.

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