O homem e a mancha

O homem e a mancha

sexta-feira, 20 de julho de 2012

ARTIMANHAS DE SCAPINO: a crítica de Antônio Hohlfeldt


Crítica de ARTIMANHAS DE SCAPINO, por Antônio Hohlfeldt, publicada na edição de hoje do Jornal do Comércio de Porto Alegre:

Novo reencontro com Molière
"A diretora Margarida Leoni Peixoto tem perseverado na busca de uma linguagem contemporânea, capaz de “traduzir” a verve criativa e comunicativa da dramaturgia cômica de Jean-Baptiste Poquelin, mais conhecido como Molière. Este é o seu terceiro trabalho baseado no conhecido comediógrafo. O resultado é, em todos os sentidos, altamente positivo porque, embora a peça tenha uma duração relativamente longa para a prática atual, com quase duas horas de encenação, sem intervalo, a verdade é que o espetáculo envolve a plateia de tal modo, que a gente não percebe o decorrer do tempo.
Uma montagem teatral, para alcançar plena consecução, depende de inúmeros fatores, porque ela sempre é, antes de tudo, um trabalho coletivo. Mas o processo começa, certamente, pela escolha do texto e sua leitura criativa-interpretativa; passa pela escolha do elenco e chega à equipe técnica, que viabiliza e concretiza as ideias da direção. Em todos esses elementos, Margarida Peixoto acertou, a começar pelo uso da bela, articulada e flexível tradução do texto original, feita por Carlos Drummond de Andrade.
O elenco de Artimanhas de Scapino, que é a peça a que nos referimos aqui, é equilibrado e foi cuidadosamente trabalhado pela direção, de modo que não há titubeios: cada ator e atriz sabe exatamente o que faz e o espaço que ocupa, tanto no espaço físico do palco quanto na trama em desenvolvimento. Ele é uníssono, ainda que, uma vez mais, Marcelo Adams se destaque no conjunto, favorecido, certamente, pela figura que incorpora, mas também por sua versatilidade: custei a reconhecer o ator por sob o figurino do criado da tradicional comedia dell’arte. Mas há uma surpresa a mais em cena: Paulo Vicente, veterano ator, meio que desaparecido de cena, e que retorna, aqui, na pele do avarento e antipático Gerôncio. Sua interpretação clássica é definitiva e inolvidável. Diria mesmo que, em se tratando do personagem que é, ultrapassa a Scapino.
Margarida Peixoto cuidou muito dos entornos da montagem. Assim, os figurinos de Cláudio Benevenga são coloridos; houve preocupação com a naturalidade das perucas, e a cenografia de Élcio Rossini garantiu veracidade à cena, aliás, simplificada, mas valorizada pelas silhuetas simpáticas das casas, que lembram, corretamente, uma cidade italiana. A trilha sonora de Marcos Chaves é alegre e casou-se bem com os versos do próprio Marcelo Adams, nem sempre colocada em tonalidades que facilitassem para os atores, mas assim mesmo, bem entonada. A coreografia de Larissa Sanguiné levou à leveza de movimentos. A maquiagem, obra da própria diretora, que tem atuado nesta tarefa em outras montagens, valorizou muito as expressões faciais: as máscaras, sem estarem demasiadamente carregadas e caricaturais, valorizaram as expressões fisionômicas, facilmente perceptíveis, especialmente em relação aos dois pais.
O projeto do espetáculo evidencia maturidade, respeito pela dramaturgia e criatividade nos mínimos detalhes, como as piscadelas da Jacinta, dirigidas sempre para o público. A comédia tem este enorme desafio: ela não permite meio termo. Ou a direção acerta e tudo anda bem, ou o ritmo irregular da encenação põe tudo abaixo. Neste caso, Margarida Leoni acertou em cheio, e mesmo quando introduz alguns cacos e busca explicitar algumas eventuais segundas intenções do texto, não o faz com mau gosto ou fugindo ao proposto originalmente pelo texto.
Eis, pois, um bom espetáculo: divertido, bem realizado e, sobretudo, ainda e sempre interessante para o público contemporâneo."

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