O homem e a mancha

O homem e a mancha

terça-feira, 4 de outubro de 2016

PORTO ALEGRE: ESPEREM O BARÍTONO

Quando se pensa em ópera, esse gênero grandiloquente que envolve - pelo menos - música, teatro, dança, literatura e cenografia, é o clichê das prima donas fisicamente opulentas que vem à mente quase imediatamente. Clichê este já superado pela prática, visto que a ópera contemporânea se deslocou consideravelmente desse modelo oitocentista e novecentista: nas últimas décadas se veem cada vez mais grandes encenadores como Bob Wilson, Romeo Castellucci ou Gerald Thomas contribuindo para a quebra de alguns paradigmas operísticos (dentro os quais a obesidade dos solistas e a cafonice cenográfica). Outro ponto a ser considerado é a continuidade na criação de óperas, assinadas por autores mais próximos de nós, cronologicamente. Obviamente, obras-primas de Mozart, Rossini, Verdi ou Wagner continuarão sendo encenadas, às vezes de forma clássica, às vezes provocativamente inovadoras. Por outro lado, vêm sendo compostas a partir do século XX óperas que se afastam (novamente, o paradigma) das estruturas narrativas tradicionais, nas quais o enredo trágico, com traições de variados tipos, adultérios e crimes de sangue faziam a alegria dos compositores e libretistas. Vemos, em direção oposta, por exemplo, Einstein on the beach, ópera composta por Philip Glass em 1976, para ser encenada por Bob Wilson.
Tive a excelente oportunidade de encenar, ao lado de Victoria Milanez, uma ópera nos moldes mais clássicos. Foi em 2005, a convite do Instituto de Cultura Musical da PUCRS, que recriamos a conhecida ópera verista I pagliacci, do compositor italiano Ruggiero Leoncavallo, com regência do saudoso maestro Frederico Gerling Júnior. A experiência de coordenar um verdadeiro batalhão de pessoas, entre coro e solistas (cerca de 90 pessoas em cena), me fez admirar o esforço hercúleo envolvido numa encenação deste tipo, ainda mais considerando a minguada tradição que a ópera tem em nosso país.
O não tão surpreendente mas decididamente infeliz resultado da eleição majoritária do dia 2 de outubro de 2016, em grande parte dos municípios brasileiros, não é uma tragédia, não nos moldes clássicos como o da opéra-comique Carmen, de Bizet, ou La Traviata, de Verdi, ou ainda Tristão e Isolda, de Wagner, que têm em comum o final infeliz representado pela morte dos protagonistas. Mas que há algo de trágico na eleição de João Dória para prefeito de São Paulo, no primeiro turno, há. E a tragicidade do embate a ser travado no segundo turno das eleições em Porto Alegre, entre Sebastião Melo e Nelson Marchezan Júnior, salta aos olhos. Como pudemos deixar que as coisas chegassem a esse ponto? Escolher entre a cruz e a caldeirinha parece muito mais A escolha de Sofia do que uma alternativa razoável.
O escritor Elio Gaspari menciona em seu livro A ditadura envergonhada (Companhia da Letras, 2002) uma frase dita pelo primeiro dos generais golpistas que governaram o Brasil após 1964, Castello Branco. No momento de sua saída do Planalto para dar lugar ao próximo arremedo de ditador - desta vez um gaúcho de Taquari, Arthur da Costa e Silva, que assumiu em 1967 -, Castello teria feito uma piada operística, testemunhada por Ernesto Geisel, entre outros. No chiste, um tenor de ópera é vaiado pela plateia durante sua apresentação, mas ao final dela, respondendo aos vaiadores, ri e solta a bomba: "Esperem o barítono".
Não considero que a solução para o impasse em Porto Alegre seja votar nulo ou em branco. Velho argumento, mas ainda válido: não se posicionar é concordar com o que outros decidirão. Como protesto, será de efeito irrisório: alguém tem dúvida de que os políticos que nos governam sabem que estamos descontentes? Não muda nada ficar emburrado e cruzar os braços. Eu, por mais que me sinta revoltado com a perspectiva que se apresenta entre Melo e Marchezan, não vou deixar que outros decidam. Tenho suficiente clareza para discernir, entre um e outro, dos males o menor. Sebastião Melo é a continuidade de um governo Fortunati absolutamente ineficaz. Mas Marchezan é o tiro no escuro, é dar poder a um homem que é unanimemente considerado como desequilibrado, arrogante e elitista. Não posso concordar com essa possibilidade. Marchezan pode ser o Collor de Porto Alegre, escondido por trás de uma boa aparência e de uma eloquência admirável.
Votar em Melo é, talvez, continuar ouvindo um tenor desafinado. Mas votar em Marchezan é ter nos assombrando um barítono descontrolado, que já está dobrando a esquina.

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