O homem e a mancha

O homem e a mancha

sábado, 2 de julho de 2016

OS DOIS GÊMEOS VENEZIANOS

"Más vale trocar pracer por dolores que estar sin amores". Este é a frase inicial da canção do espanhol Juan del Encina, escrita provavelmente entre o final do século XV e o começo do XVI, e que é apresentada de forma belíssima em um coro de cinco vozes em determinado momento da encenação de Suzi Martinez de Os dois gêmeos venezianos. A montagem da Trupe Giramundo para o texto do italiano Carlo Goldoni, escrito em 1747 ou 1750, mostra que não há nenhum empecilho em misturar línguas e épocas, ao contrário: a mestiçagem enriquece a raça.
Goldoni é considerado um dos grandes autores da língua italiana, ao lado de Dante, Boccaccio, Maquiavel, Fo, Pirandello, e por aí vai. Sua biografia é ligada irremediavelmente à commedia dell'arte, gênero que cultivou e negou, alternadamente, durante toda sua vida. Se nas primeiras décadas do século XVIII, paralelamente aos seus estudos em Direito (feitos para agradar ao pai), Goldoni escreveu canovacci (roteiros arejados sobre os quais os atores improvisavam e compunham a cena no calor da representação) para servirem de mote aos comediantes dell'arte, chegou um momento em que não mais o satisfizeram as características próprias do gênero, tais como a estilização e a tipificação sugeridas pelo uso das máscaras, a intriga convencional com figuras bem divididas entre as categorias da commedia dell'arte, como os velhos, os enamorados e os criados, e até mesmo as práticas recorrentes das intrigas, como o fato dos criados surrarem os amos para extrair o riso. Goldoni passou a considerar que a nova arte dramática italiana deveria passar pela arguta observação dos costumes da época, para que, de forma mais "realista", chegasse a um reflexo preciso do mundo em que vivia. É curioso comparar essa ambição de Goldoni com o que Molière fizera várias décadas antes na França, quando, ao eleger tipos característicos para suas críticas, como o avarento, o hipocondríaco, o médico charlatão e o pseudo-intelectual, os fazia cercar de figuras de evidente inspiração "commediadell'arteana", como serviçais, criados, jovens enamorados e pais turrões. E Molière conseguiu essa proeza sendo ao mesmo tempo socialmente crítico e convencional.
Quando Goldoni escreveu sua primeira peça "completa", quer dizer, uma em que cada palavra seria pronunciada pelos atores, sem espaço para o improviso textual, abriu-se uma possibilidade rica: fixar, pela primeira vez em textos mais complexos, as máscaras da commedia dell'arte, que anteriormente só viviam de forma fragmentária nos canovacci. O mais conhecido exemplo dessa vertente, e também o mais famoso texto de Goldoni, é Arlequim, servidor de dois amos, de 1745, além do já referido Os dois gêmeos venezianos. Como a intenção aqui não é biografar Goldoni, retorno ao motivo deste escrito: a encenação desta obra, realizada de forma bem sucedida em Porto Alegre, e pelo que sei, pela primeira vez aqui.
Utilizando o bom e velho artifício dos gêmeos que confundem e são confundidos para arrancar o riso, empregado desde a Roma antiga por Plauto em Os menecmos, ou por Shakespeare em A comédia dos erros, são apresentadas conhecidas figuras da comédia à italiana, entre elas Arlequim, Doutor, Capitão e Colombina. Outras, como Rosaura, Beatriz e Fabrício, são filhas do gênero, alguns dentre os tantos nomes que os enamorados recebem nessa estrutura convencionalizada. Portanto, dramaturgicamente, há pouca novidade e ineditismo na abordagem da trama; exceção mencionável é a morte de um dos mocinhos e do vilão, antecedendo o final feliz: há aqui, efetivamente, um dado novo nas edulcoradas tramas românticas associadas ao gênero. A Trupe Giramundo deita, rola, pinta, borda, canta, dança e chega perto de comover ao espectador mais atento ao tema que, em minha opinião, subjaz à alegre e descompromissada encenação: o teatro em si.
O teatro do século XXI, assim como o de outros momentos do século anterior, se coloca frequentemente a obrigação de tratar de assuntos e temas ferozes, atuais, socialmente relevantes, denunciadores do estado das coisas, críticos, etc. Nada mais necessário, afinal, quem foi que disse que o teatro efetua [pode efetuar] a crônica de seu tempo? Já que cada espetáculo é arte viva que só acontece uma vez a cada vez, e perante aqueles poucos que ali estiveram, o teatro se mostra adequado para retratar a passagem das coisas: do tempo, dos costumes, das ideias. A ânsia que sofremos de fazer a diferença, de mudar o que não concordamos, de melhorar o que está ruim, leva os teatreiros a buscarem o incêndio dos assuntos necessários: concordo com isso, já que considero essa uma das funções do artista. Mas: espetáculos como Os dois gêmeos venezianos percorrem um outro caminho, belo e importante: ao fazer esse tipo de teatro, tematiza o próprio ofício, mesmo que não explicitamente. Poderia eu diferentemente encarar essa declaração de fidelidade e devoção ao teatro, representado pelo extremo preparo dos atores desse elenco, que se desdobram em músicos e contrarregras? Poderia eu deixar de me sentir cúmplice das dificuldades comuns à produção de uma encenação ambiciosa como esta - ambiciosa no melhor sentido possível, aquele que traz o significado de superação de obstáculos financeiros, artísticos e outros tantos? Poderia eu descrer da vontade entrevista nos corpos e vozes de cada um sobre o palco, garra envolta talvez não nos melhores e mais caros tecidos ou nos materiais mais reluzentes, mas em simples algodão, que absorve o suor que todos derramam para nos divertir? O trabalho de atuação de cada um cuidadosamente composto, ensaiado, articulado, medido: prova de amor. A alegria que vai chegando aos poucos aos atores: no início ainda um pouco frios, mas que vão se aquecendo progressivamente e puxando os olhares e a atenção para tudo que fazem sobre o palco, e quando me dou conta, tudo ferve. Guilherme Ferrêra, Henrique Gonçalves, Juliana Barros, Luciano Pieper, Marlise Damin, Paulo Brasil e Suzi Martinez encontram, cada qual em sua máscara, a abordagem precisa para tornar a atuação vívida e engraçada. O destaque é coletivo, pelo entendimento da linguagem escolhida, pelo toque pessoal que cada ator acrescenta à máscara que porta. Quero, ainda assim, falar do trabalho de Henrique Gonçalves, o Arlequim. Não é à toa que essa personagem tem tanto prestígio, pois ao mesmo tempo que se mostra exigente para quem se propõe a atuá-lo, o Arlequim proporciona ao seu "cavalo" uma infinita possibilidade de jogo cênico. Henrique defende muito bem sua parte, tem uma agilidade admirável, uma voz carismática e grande habilidade para criar deliciosos lazzi: é bom esse guri!
Sobre o palco e fora dele, a diretora Suzi Martinez traz com sucesso, segurança e conhecimento das convenções um espetáculo para se rever: eu mesmo escrevo este texto depois de ter assistido pela segunda vez. Se a Trupe Giramundo se dispuser a manter em repertório esse espetáculo, estou certo de que há ainda muitas alegrias no caminho.

4 comentários:

  1. É um prazer "ouvir" as palavras de Marcelo Adams, alguém que admiro sobremaneira, é um prazer perceber que alguém realmente entende a proposta desta montagem e compreende o trabalho duro que foi chegar até aqui. Sim, Marcelo, nós insistiremos com ele e o levaremos até onde nos for possível, obrigada pelo alento e que venham as alegrias do caminho!

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    1. Parabéns a você, "Unknown". Suspeito que seja um dos atores ou atrizes do elenco...hahaha!

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