O homem e a mancha

O homem e a mancha

sábado, 28 de setembro de 2013

Não importa o tamanho, mas o prazer que ele proporciona

 
Estive pensando em uma afirmação que li, há alguns dias, no recém lançado livro sobre o ator Carlos Cunha Filho, editado pelo Porto Alegre em Cena e escrito por Renato Mendonça, a partir de entrevistas realizadas por ele e por Michele Rolim com o objeto da pesquisa. O Cunha é um dos melhores atores com quem já contracenei, e nos vários processos de criação de espetáculos que já dividimos (foram oito: Ano novo, vida nova, Os bacharéis, Hamlet, Édipo, Platão dois em um, Ifigênia em Áulis + Agamenon, Legalidade, o musical e Marxismo, ideologia e rock'n'roll) sempre estive atento às suas palavras e ao que ele fazia em cena, acompanhando como se dava a construção das figuras/personagens, as escolhas, as mudanças de rumo, e por aí vai. Bem, o Cunha afirmou, no referido livro, que o tamanho da personagem não importa, para ele, e sim a qualidade ou a exigência que essa personagem representa para o ator. Até aí tudo bem, é claro que mais vale uma personagem bem condimentada com uma única cena, que seja marcante, do que um protagonista insosso, repleto de "indutores de bocejo". O Cunha sabe bem o que é isso, pois em 2001, quando encenamos Ano novo, vida nova, texto de Vera Karam e direção de Decio Antunes, a personagem que coube a ele não proferia nenhuma palavra durante mais de uma hora de espetáculo, apenas dando duas ou três tiradas ao fim da peça. E mais, a figura dele estava totalmente à margem do "conflito" do espetáculo, funcionava como um observador, um representante privilegiado dos espectadores sobre o palco, estando muito próximo, fisicamente pelo menos, das figuras ficcionais que ali transitavam.
O que acabei refletindo é que, obviamente, uma personagem pequena pode se destacar dentro de uma encenação; e o que seria do teatro sem essas figuras? Nem só de Hamlets e Macbeths vive Shakespeare. Nem só de Alaídes e Genis vive Nelson Rodrigues. Sem falar na consciência de que o teatro é uma arte coletiva por definição (e não da mesma forma que o cinema, que também necessita de dezenas de pessoas para concretizar-se, mas que trabalham juntos, geralmente, em uma estrutura industrializada, não artesanal, como o teatro). O teatro precisa de um grupo (formalizado ou não) porque é dessa forma que sua linguagem se estrutura: na confluência de ideias. 
Os coadjuvantes são a "caminha" onde deita e rola o protagonista, e não preciso ser mais explícito na metáfora, é só lembrar como é ruim uma noite dormida num colchão vagabundo. E esse reconhecimento vem, de alguma forma, pelas categorias de Melhor Ator e Atriz Coadjuvante que se veem nos festivais de teatro ou cinema.
Mas aqui entra o meu porém, que é a defesa dos protagonistas (ou coprotagonistas) para os atores. Para mim, típico ator obcecado pelo teatro, ter em mãos uma personagem "grande" (não falo só de volume de texto, embora minha paixão pela palavra também peça personagens que se comuniquem muito pela forma verbal) é uma necessidade. A complexidade exigida no trabalho é, sem dúvida, maior, já que é depositada sobre si grande parte da atenção dos espectadores. Nesse caso, o tombo pode ser muito maior (quanto maior a altura, maior o tombo): lembrem do ator Ricardo Macchi, que virou um símbolo de ator despreparado com seu cigano Igor.
Lembrei dessas coisas após assistir, na semana passada, a atriz Sandra Dani interpretar a Winnie em Oh! os belos dias, de Samuel Beckett, em encenação de Rubens Rusche. A exemplo do Cunha, também dividi o palco com a Sandra, algumas poucas vezes. Em Os bacharéis, por exemplo, opereta dirigida por Élcio Rossini em 2005, em que eu fazia o protagonista Cincinatus, a Sandra atuava em poucas cenas de conjunto, uma figura com pouco espaço para se desenvolver. No entanto, Sandra é uma grande atriz, e alguém que a visse apenas em Os bacharéis diria de seu trabalho que nada havia ali que indicasse tratar-se ela de uma das maiores do Brasil (desculpem a afirmação megalômana, já que não conheço a maioria das atrizes brasileiras; mas dentre aquelas que vi atuarem, Sandra é uma das maiores). Defendo o seguinte: um bom ator precisa (sim, precisa) de bons e volumosos papéis para se desenvolver. Em Oh! os belos dias Sandra Dani confirma aquilo que já sabíamos, mas tenho certeza de que para ela, pessoalmente, em seu íntimo trabalho de atriz, foi muito importante passar por essa experiência desafiadora. Sandra saiu melhor atriz dessa exigência que Winnie representou. Bons atores se alimentam das dificuldades, aprendem com elas. E para o Carlos Cunha Filho digo o mesmo: é um grande ator, seja em pequenos ou em grandes papéis. Mas sei que desafiá-lo com personagens complexas é um bem que se faz a ele e ao público que terá, ao fim do processo (e se tudo der certo, já que não há garantias de sucesso, nunca), uma performance de brilho.
Eu, por meu turno, me sinto privilegiado de poder, nesses 20 anos de carreira (quanto tempo se passou!, mas ainda me sinto, às vezes, com o mesmo assombro de duas décadas atrás, frente à beleza do teatro), ter podido aprender com todos aqueles com quem trabalhei, e com todas as personagens que me foram confiadas, muitas vezes protagonistas. E quero mais. Quero o que não sei fazer, o que é difícil, para quebrar as facilidades construídas. Quero o que sei fazer bem, também construído ao longo de muitos processos, pesquisas e observações. Quero fazer, em suma. E para isso, personagens como a Winnie foi para a Sandra Dani - e que representa uma possibilidade de fazer aflorar todo o talento dessa grande atriz -, são, por que não dizer, pedagógicos, pois ensinam não pela "decoreba", mas fazem o "aluno" sair a campo, pesquisar, descobrir, criar, testar seus limites.

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