O cineasta norte-americano Terrence Malick (1943) dirigiu seu primeiro longa metragem em 1973 (Terra de ninguém). Cinzas no paraíso (1978), Além da linha vermelha (1998), O novo mundo (2005) e A árvore da vida (2011) completam sua filmografia: sim ele dirigiu apenas cinco filmes em quase 40 anos. Essa pequena mas importante produção demonstra que Malick não se deixa seduzir pelo sonho hollywoodiano, seus filmes são obras frequentemente enigmáticas (não no estilo David Lynch, fique claro), que talvez possam ser descritos como ensaios poético-visuais. Não há muito diálogo entre as personagens, mas narrações em off que dão conta muito mais de considerações filosóficas do que esclarecer o que se vê na tela. A última produção de Malick, A árvore da vida, recebeu a Palma de Ouro de Melhor Filme em Cannes, e tem no elenco os astros Brad Pitt e Sean Penn. Mas não espere um filme convencional, como os que Pitt e Penn fazem normalmente. A árvore da vida é um filme de imagens belíssimas, e com um andamento lento que incomoda algumas pessoas. Concordo que é preciso, de alguma forma, se identificar com a temática predominante do filme (a relação entre um pai e um filho pré-adolescente, no Texas dos anos 1950), ou se deixar encantar pela longa sequência em que é reproduzido o Big Bang, o evento que teria dado origem ao universo, e o processo de bilhões de anos que se seguiu, até o surgimento da vida na Terra (dinossauros, especialmente). Mas o longa de Malick é cinema puro, com tudo aquilo que é próprio da linguagem cinematográfica em sua exuberância: a montagem, a fotografia, o uso da trilha sonora, etc.
Marcelo Ádams
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Jânio Quadros solta a voz
A trilha sonora da LEGALIDADE- O MUSICAL foi composta por Hique Gomez: é fantástica. Há um momento em que minha personagem, o presidente Jânio Quadros, canta uma habanera, e a foto aí de cima do ensaio mostra a grandiloquência da cena. É claro que o Jânio tem um "que" de clown, e eu me aproveito disso, porque não sou bobo nem nada...
E esta aqui é passando um bom de um laquê no cabelo, para domar os cachos rebeldes!
Jânio Quadros e Che Guevara
LEGALIDADE- O MUSICAL será apresentado nos dias 3 e 4 de setembro, sábado e domingo, às 20 horas, em frente ao Palácio Piratini. A comemoração dos 50 anos do movimento da Legalidade, liderado pelo então governandor do RS, Leonel Brizola terá como principal atração esse grande espetáculo, que tem direção artística de Luciano Alabarse e direção musical de Hique Gomez. No elenco, quase 30 atores e uma equipe técnica gigantesca para preparar um evento inesquecível.
Na foto acima eu, Marcelo Adams, como Jânio Quadros, e o Marcello Crawshaw como Che Guevara, em foto de ensaio, no momento em que Jânio condecora o líder guerrilheiro, dias antes de renunciar ao mandato de Presidente da República, em 25 de agosto de 1961. Falta a caracterização, é claro, mas eu vou ficar a cara do Jânio, esperem!
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Breves entrevistas com homens hediondos
O aclamado livro de David Foster Wallace já foi adaptado para o cinema em 2009 (http://www.imdb.com/title/tt0790627/) e, segundo alguns comentários que li, não foi muito bem sucedido. Um dos argumentos dessas críticas pouco favoráveis é a dificuldade que a adaptação de textos literários encontra na transposição para outra linguagem. Isso não é novidade: desde sempre soubemos que um romance ou conto quando transposto para uma linguagem eminentemente imagética como é o cinema tem que encontrar a maneira mais adequada de resumir/sintetizar/adaptar o gigantesco número de palavras que uma narrativa literária traz e transformá-las em movimentos sensoriais. E não basta apenas adaptar, é necessário eleger, frequentemente, uma abordagem das inúmeras que existem potencialmente. Em poucas palavras: não dá para colocar o livro inteiro no filme (ou no palco).
Meu amigo cineasta Fabiano de Souza já adaptou um romance de Dyonélio Machado (O louco do Cati) para o cinema, dando origem ao longa metragem A última estrada da praia. Leia o livro e veja o filme (que estreará no dia 16 de setembro no Cine Santander, em Porto Alegre, a propósito), e confira que do romance original de Dyonélio há bem pouco, muito pouco. E em minha opinião, isso não é algo para se contestar: duas linguagens distintas geram duas obras diversas.
Algo semelhante ocorre quando se adapta uma obra literária para o palco. Nos últimos anos, Porto Alegre viu algumas dessas experiências, como o excelente O sobrado, do Grupo Cerco, onde a transposição de Erico Veríssimo encontrou a atmosfera apropriada. E agora o Teatro Sarcáustico apresenta Breves entrevistas com homens hediondos, a partir do livro de contos de Wallace.
Minha relação com esse livro começou em 2005, quando a atriz Elisa Viali me entregou o volume de contos me dizendo "Tu vais adorar, acho que tem a tua cara e dá pra adaptar pro teatro". Levei o livro pra casa, li, mas não me entusiasmei muito, pois achei que era eminentemente narrativo, ou seja, não sugeria praticamente ações, limitando-se a alguns homens falando, contando, coisa excelente numa leitura, mas perigosa em um palco. Devolvi o livro pra Elisa e ficamos assim.
O Sarcáustico certamente enfrentou a mesma limitação narrativa, mas o que eles fizeram foi, de fato, apostar na força das palavras, das imagens criadas pelas palavras, muito mais do que naquelas construídas teatralmente. É claro que existem transições, costuras, e pontuações teatrais que povoam a encenação, mas desta vez o grupo investiu em outra forma. Conseguem dar dinâmica, beleza e contundência às palavras de Wallace. Se em Wonderland a espetacularização era quase carnavalesca, até pelo espaço cênico estilo passarela, em Breves entrevistas... o espaço mínimo do Teatro de Arena induz à introspecção, à contenção. Em Wonderland havia o brilho cegante da luz, em Breves entrevistas..., a sombra.
Em um espetáculo de 2 horas de duração, é difícil manter o alto nível de interesse, e isso acontece no novo espetáculo. Há momentos de baixa, que felizmente é logo superada pela qualidade e entrega dos atores, e através das soluções simples mas eficientes. Se fosse colocar em apenas uma frase, diria que o Sarcáustico é um grupo que não tem medo de errar, é um coletivo de jovens com ideias interessantes sobre teatro, e que parecem saber colocar esse mundo caótico em que vivemos sobre o palco.
É claro que Daniel Colin tem muita responsabilidade sobre o que se viu, sendo ele uma espécie de agregador talentoso, com uma vasta cultura pop (principalmente) e muito antenado ao mundo contemporâneo. Mas a cena emblemática da encenação, em minha opinião, é a primeira, de Johnny Bracinho, interpretada por Rossendo Rodrigues sob a direção de Daniel. Não por ser apenas chocante em sua sinceridade e ironia, mas pelo trabalho de Rossendo, que realmente dá um show. Ricardo Zigomático e Guadalupe Casal completam o elenco, com trabalhos igualmente intensos e de entrega inequívoca. (Atenção para o Ricardo, muito promissor como encenador).
O jorro de palavras que se vê sobre o palco confirma aquilo que alguns insistem em negar: que dizer bem um texto é indispensável; e que ação física não é apenas acrobacia e marcações dinâmicas, mas falar, também. E o Teatro Sarcáustico confirma sua posição como um dos grupos mais importantes de Porto Alegre.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
LEGALIDADE- O MUSICAL é adiado para os dias 3 e 4 de setembro
Em função da chuva que não tem dado trégua, o mega-espetáculo LEGALIDADE- O MUSICAL, que comemora os 50 anos de um dos mais importantes eventos políticos do Brasil do século XX, teve suas apresentações em frente ao Palácio Piratini adiadas para a semana seguinte, dias 3 e 4 de setembro, às 20 horas.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Vagas para a UERGS: Teatro, Dança, Artes Visuais e Música
Quem estiver interessado em estudar na UERGS, estão abertas as inscrições para Ingresso Extra-Vestibular. São vagas nos cursos de LICENCIATURA em TEATRO, DANÇA, ARTES VISUAIS e MÚSICA, ministrados na cidade de Montenegro, a 70 km de Porto Alegre.
O lnk para maiores informações é:
Tartufo
Tartufo é das comédias mais conhecidas de Molière, um dos maiores dramaturgos da história, e que encontrou o seu meio de expressão ideal não nos dogmas classicistas do período barroco francês (de autores como Racine e Corneille), mas na comédia de orientação muitas vezes farsesca (O médico à força, As artimanhas de Scapino). Ao lado dessas comédias mais físicas, que se impõem pela rocambolização do enredo (e com inspiração mais evidente no "teatro puro" da Commedia dell'arte), Molière escreveu comédias de caracteres (O avarento, O doente imaginário) e comédias de crítica de costumes (O burguês fidalgo, As preciosas ridículas). Esses exemplos não esgotam a volumosa produção de Molière, que ainda escreveu comédias pouco cômicas, como O misantropo, comédias-bailado, etc. Até tragédias o francês se atreveu a escrever, com esperado fracasso.
Sendo uma sátira à religião, Tartufo coloca em questão a aparentemente inexplicável ingenuidade a que são levados os "crentes", certos de que o reino dos céus estará aberto a eles, em medida proporcional à quantidade de dinheiro que doam como dízimo. Há, evidentemente, momentos altamente cômicos, mas que fogem à farsa pura que Molière utilizou em vários momentos em outras peças. Em determinadas cenas do Tartufo, Poquelin mostra todo seu pendor para as situações mais desatinadas, típicas da farsa, mas de forma nenhuma pode-se dizer que a peça seja uma farsa.
O Grupo Farsa, que no programa da peça escreve ser "um dos poucos grupos do país a se dedicar ao estudo e apresentação da farsa", coloca em cena pela segunda vez um texto de Molière (da primeira vez, em 2009, foi O avarento), e novamente elege como dramaturgia não uma farsa, mas uma comédia de caracteres. Isso não é uma crítica, apenas uma constatação e uma "alforria" para o grupo: por se chamar Farsa, o grupo não precisa montar apenas farsas para ser coerente. Um nome é apenas um nome, e há muita dramaturgia boa por aí, inclusive comédias, que prescindem do rótulo "farsa" para serem engraçadas.
Bem, dito isso, é preciso também acrescentar que um espetáculo não é apenas um texto encenado. É possível construir uma farsa com um texto que não o seja. E o caminho do grupo dirigido por Gilberto Fonseca vai um pouco por aí. O texto em si do Tartufo não se encaixa no gênero farsa, e até não é engraçado em vários momentos, mas conforme sua encenação, essa característica se acentua: a postura de alguns dos atores, como Marcos Chaves e Tefa Polidoro remetem à estilização de inspiração italiana. Até mesmo as irreverentes quebras metalinguísticas que ocorrem durante a peça poderiam dar um outro sentido à palavra farsa: "somos atores que fingem ser algo que não são; somos farsantes e escancaramos isso para vocês, algumas vezes".
A encenação do Grupo Farsa é curta, levando em consideração a extensão do texto original de Molière: cerca de 1 hora. O texto na íntegra certamente não levaria menos de 2 horas para ser levado à cena. Ou seja, muitos e profundos cortes foram feitos no texto de cinco atos. Personagens importantes não foram cortadas, apenas uma criadinha, Flipotte, que em nada acrescenta à trama. O que acontece sim é a aceleração do desenvolvimento da ação, que se dá de forma velocíssima, já que as chamadas "gorduras" do texto original foram lipo-aspiradas até o osso, deixando-se nas mãos da trilha sonora algumas informações que originalmente se davam através de longas falas. Esse expediente já fôra usado com sucesso em O avarento, e retorna aqui com semelhante eficácia. Digo "semelhante" porque nem todas as intervenções musicais parecem 100% resolvidas narrativamente.
Há coerência na encenação em não tornar o que se vê tão cômico quanto em O avarento. Isso porque Tartufo é um texto mais sombrio, que fala de coisas mais sérias. Nesse sentido, a opção por cores como o preto e o branco nos figurinos e a sobriedade da cenografia (apenas uma mesa e duas cadeiras, que entram em momentos breves e bastante específicos) demonstra que o Grupo Farsa está se "transformando": deixando de ser apenas um coletivo que monta farsas. Talvez seja precipitado de minha parte afirmar isso: veremos na anunciada montagem de O doente imaginário para onde vai a inspiração do grupo. Se em direção à comédia à italiana (que dava mais as caras em O avarento) ou ao quase naturalismo de algumas composições de ator em Tartufo (Carlos Azevedo, Lúcia Bendati e Vinícius Meneguzzi).
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Melancolia
Lars von Trier é desses cineastas que podem ser chamados autorais: a cada filme que dirige, ele nos entrega obras inquietantes, não raro polêmicas, e que têm o poder de tocar profundamente os espectadores. Ele não é unanimidade, e é bom que não seja, pois assim, aparentemente, ele não se deixa levar pelos louros do sucesso. Seu último longa, Melancolia (2011) tem a capacidade de angustiar, poucas vezes vista com tanta intensidade no cinema. O tema, como tem se repetido em seus últimos filmes, é a morte: destino ao qual nenhum de nós escapará, mas que tentamos manter longe de nossas consciências e reflexões.
Um planeta chamado Melancolia está em rota de colisão com a Terra. Duas irmãs, Claire e Justine, aguardam o momento do choque, que poderá não acontecer, afinal. A espera pela resolução dessa dúvida é uma das principais linhas condutoras do filme. Kirsten Dunst recebeu a Palma de Ouro de Melhor Atriz em Cannes pelo papel de Justine, mas se o prêmio fosse para Charlotte Gainsbourg, que interpreta Claire, teria sido justo também. Aliás, Charlotte ganhou a mesma Palma de Ouro em 2009, pelo filme anterior de Von Trier, Anticristo. Von Trier mostra-se um excelente diretor de atrizes, já que a cantora Björk recebeu igualmente a Palma de Ouro de Melhor Atriz em 2000, por Dançando no escuro, ocasião em que o longa também recebeu o prêmio de Melhor Filme. Segundo o diretor, a ideia inicial era filmar uma adaptação da peça teatral As criadas, do dramaturgo francês Jean Genet (1910-1986), mas da história original só restou o nome de uma das irmãs, Claire, nome também de uma das personagens-irmãs da peça de Genet.
O filme Melancolia é uma pequena obra-prima, que usa muito sabiamente a trilha sonora, marcada quase que exclusivamente pelo Prelúdio da ópera Tristão e Isolda, do compositor alemão Richard Wagner, apresentada pela primeira vez em 1865. A ideia de leitmotiv (que em alemão tem o sentido de "fio condutor"), aplicada à música por Wagner, é a de eleger um trecho musical que será associado, diversas vezes durante a obra, à figura de uma personagem, ou a uma situação específica. Em Melancolia, Von Trier utiliza o prelúdio wagneriano para marcar o sentimento de apreensão e angústia pela ideia de fim do mundo: é arrebatador:
E por falar em obras-primas, não posso deixar de mencionar o cineasta do meu coração, Alfred Hitchcock. Um de seus colaboradores mais frequentes era o compositor Bernard Herrmann que fez a música de vários fimes de Hitchcock (Intriga internacional, Psicose, Marnie, confissões de uma ladra, O terceiro tiro). Entre esses filmes, está Um corpo que cai (1958), que tem uma de suas cenas mais marcantes conduzida ao som da célebre Scene d'amour, de Herrmann. Notem a semelhança entre a partitura de Herrmann e a música de Wagner:
domingo, 7 de agosto de 2011
Cabaré do Ivo
O espetáculo Cabaré do Ivo fará uma única apresentação na próxima quarta-feira. A obra do maior dramaturgo gaúcho em fragmentos de sete de suas peças. Um espetáculo irreverente e altamente teatral.
Pausa em Montenegro
Ontem ministrei a aula final do semestre 2011/1 na graduação em Teatro: Licenciatura da UERGS: a disciplina História do espetáculo teatral I. Agora, um recesso de apenas uma semana e já iniciarão as aulas do segundo semestre, no dia 15 de agosto.
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
Uma longa estrada para A ÚLTIMA ESTRADA DA PRAIA
Mais notícias sobre o longa metragem A ÚLTIMA ESTRADA DA PRAIA, produção gaúcha dirigida por Fabiano de Souza, com os quatro atores da foto aí de cima como protagonistas: Marcelo Adams, Miriã Possani, Marcos Contreras e Rafael Sieg.
Depois de receber o prêmio de Melhor Direção no 1º Festival Lume de Cinema, em São Luís do Maranhão, o filme tem a sua participação confirmada em vários outros eventos pelo Brasil e pelo mundo:
* 40˚ Festival du Nouveau Cinéma, em Montreal, Canadá (de 12 a 23 de outubro)
* 4˚ Festival de Triunfo, em Pernambuco (de 15 a 20 de agosto)
* Mostra Deslocamentos e Caronas, do Itaú Cultural: dia 24 de agosto em Belo Horizonte (Palácio das Artes) e no dia 25 em Curitiba (Sesc Paço da Liberdade) http://www.itaucultural.org.br/
E, o melhor de tudo, o filme vai finalmente estrear comercialmente nos cinemas de Porto Alegre!
A partir do dia 16 de setembro, no Cine Santander, Centro de Porto Alegre, o público vai poder assistir a essa história que começou em 2007, com as filmagens no litoral gaúcho.
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Um doce olhar
Filme para se recomendar: Um doce olhar (a tradução brasileira para o título que originalmente significa "mel"). A produção é da Turquia (uma cinematografia que raramente chega até nós), foi dirigida por Semih Kaplanoglu, e recebeu o Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim 2010.
Um doce olhar se insere naquela longa tradição de filmes que abordam o mundo a partir do olhar da criança. Muitas vezes esse olhar ingênuo/perplexo nos deu grandes obras, como A fita branca (2009), Ninguém pode saber (2004), Kolya, uma lição de amor (1996), Léolo (1992), Adeus, meninos (1987), Fanny e Alexander (1982), ET, o extraterrestre (1982) e Pixote, a lei do mais fraco (1980). Há muitos outros; pelo jeito os roteiristas e cineastas têm um carinho especial pela infância.
quinta-feira, 28 de julho de 2011
LEGALIDADE, O ESPETÁCULO: comemoração em grande estilo
Getúlio Vargas (1882-1954)
João Goulart (1919-1976)
Carlos Lacerda (1914-1977)
Leonel Brizola (1922-2004)
Jânio Quadros (1917-1992)
General Machado Lopes (1900-1990)
Paulo César Pereio
Nos próximos dias 27 e 28 de agosto, Porto Alegre verá um espetáculo de grandes proporções, com teatro, música e dança. Nestas datas, e utilizando como cenário a própria fachada do Palácio Piratini, na rua Duque de Caxias, no Centro de Porto Alegre, será montada uma estrutura ao ar livre para comemorar os 50 anos do movimento da Legalidade, ocorrido entre o final de agosto e o início de setembro de 1961. O espetáculo, patrocinado pelo governo do estado do RS, tem direção cênica de Luciano Alabarse e contará, a partir de narrações, discursos, canções, coreografias, projeções e iluminação, um pouco do que representou a Legalidade para os gaúchos e para o Brasil.
Atores representarão algumas das principais figuras daquele momento:
Evandro Soldatelli viverá Leonel Brizola
Marcelo Adams viverá Jânio Quadros
Carlos Cunha Filho viverá Getúlio Vargas
Mauro Soares viverá João Goulart
Eduardo Steinmetz viverá Carlos Lacerda
Marcello Crawshaw viverá Che Guevara
Cassiano Ranzolin viverá Machado Lopes
Cassiano Ranzolin viverá Machado Lopes
Paulo César Pereio viverá ele mesmo (para quem estranhar o Pereio no meio desses políticos todos, saibam que ele e a poeta Lara de Lemos foram encarregados por Brizola, em 1961, de compor o Hino da Legalidade, um instrumento a mais para a resistência heroica daqueles dias: Lara fez a letra e Pereio a música).
Além disso, um coro formado por 20 atores dará vida aos principais momentos da Legalidade, e Luiz Paulo Vasconcellos e Ida Celina farão serão os narradores dessa história. A sonoplastia é de Margarida Leoni Peixoto.
A trilha sonora está sendo composta especialmente por Hique Gomez (do espetáculo Tangos e tragédias). Será um evento grandioso, que além dessas duas apresentações ao ar livre, na frente do Piratini, terá uma apresentação no Theatro São Pedro, em 1º de setembro, para aqueles que preferirem um local mais "quentinho").
Legalidade: 50 anos
Neste ano de 2011 completam-se os 50 anos de um dos movimentos políticos mais importantes da história do Brasil: o incidente que foi chamado de Legalidade, e que teve como protagonista o povo gaúcho, encabeçado pelo então governador do RS, Leonel Brizola. A Legalidade refere-se à luta pela legitimação da posse do vice-presidente João Goulart, o Jango (gaúcho de São Borja), após a renúncia do presidente Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961. Jânio renunciou após apenas 7 meses de mandato, alegando que "forças ocultas" o obrigavam a abandonar a presidência. O caso é que no momento da renúncia, João Goulart visitava a China comunista, em caráter oficial, o que fez "crescer o olho" dos militares da época, que alegavam não poder permitir que um homem ligado à esquerda (portanto, potencialmente perigoso), se tornasse o mandatário máximo do Brasil. Assim, com uma tentativa de golpe, tentou-se passar por cima da Constituição, que previa a ascensão ao poder do vice-presidente em caso de falta do presidente. Brizola, tomando as dores não só de Jango (de quem era cunhado), mas da Constituição em si, armou uma verdadeira operação de guerra no Palácio Piratini, sede do governo do estado, para evitar o golpe.
Aqueles dias de final de agosto de 1961 viram, em Porto Alegre principalmente, mas no restante do RS também, um dos maiores exemplos de civismo e engajamento político que nosso país já presenciou. Barricadas foram armadas na frente do Piratini; a população porto-alegrense recebeu revólveres e pistolas confiscadas da Taurus (fábrica de armamentos), tudo com o intuito de resistir à ilegalidade. No porão do Piratini foi montada uma rádio "clandestina", a Rede da Legalidade, que transmitia, 24 horas por dia, notícias relacionadas à crise, além dos inflamados discursos de Brizola, insuflando a população a resistir.
A Porto Alegre de 1961 viveu dias incomuns e inesquecíveis, sob a ameaça real de bombardeios, ordenados por generais e ministros militares do Sudeste e do Nordeste. Por pouco o Piratini não foi alvo de bombas: isso não aconteceu por uma questão de negociações e endurecimento.
Finalmente, Jango desembarcou no Brasil (a viagem de volta da China, naquela época, durava dias). Conseguiu, por força das pressões gaúchas, assumir a presidência do país, mas com uma distorção: o Congresso Nacional foi obrigado a mudar o regime de governo, de Presidencialismo para Parlamentarismo, e por esse motivo o Brasil teve, pela primeira e única vez em sua história, um Primeiro-Ministro: o mineiro Tancredo Neves. O Parlamentarismo brasileiro durou pouquíssimo: de 1961 a 1963, quando foi feito um plebiscito. O povo escolheu a volta do Presidencialismo, Jango recebeu seus devidos plenos poderes. Um ano depois, em 31 de março de 1964, ocorreu finalmente o famigerado golpe militar, que derrubou Jango e instalou no país um período negro que duraria até 1985. Mas isso é outra história.
A história do Brasil é tão rica que é possível ficar escrevendo por horas.
domingo, 24 de julho de 2011
A última estrada da praia ganha prêmio em festival
O longa metragem A última estrada da praia, dirigido por Fabiano de Souza, foi premiado no I Festival Internacional Lume de Cinema, realizado na cidade de São Luís, no Maranhão. O festival promoveu competições entre filmes nacionais e internacionais, e A última estrada da praia, produção que faço parte do elenco, saiu com o prêmio de MELHOR DIREÇÃO para FABIANO DE SOUZA. O filme ainda não estreou comercialmente, espero que isso aconteça logo, para mostrar a força desse cinema feito no RS.
A lista dos premiados no festival é:
Melhor filme: O Moinho e a Cruz, de Lech Majewski (Polônia/Suécia)
Melhor diretor: Veiko Ounpuu, por A Tentação de Santo Antônio (Estônia)
Contribuição artística: Rio Dooman, de Lu Zhang (Coreia do Sul/China)
Menção honrosa: Abrigo de Dragomir Sholev (Bulgária)
Melhor curta: Rita, de Fábio Grassadonia e Antonio Piazza (Itália)
Contribuição artística em curtas: The Magus, de Jaimz Asundson (Canadá/Alemanha)
Menção honrosa em curtas: Fornos de Carvão, de Piotr Zlotorowicz (Polônia)
Competição nacional:
Melhor filme: Além da Estrada, de Charly Braun
Melhor direção: Fabiano de Souza, por A Última Estrada da Praia
Menção honrosa: Terra Deu, Terra Come, de Rodrigo Siqueira
Melhor curta: Caos, de Fábio Baldo
Menção Honrosa: O Som do Tempo, de Perus Cariry
Mostra olhar crítico:
Melhor filme: Totó, de Peter Schreiner (Áustria)
quarta-feira, 20 de julho de 2011
OFICINA DE MONTAGEM DA CIA. DE TEATRO AO QUADRADO
PLAZA XAVANTES (2011)
BOLE BOLE ROCAMBOLE (2010)
SPA- SITIADOS PARA ASSASSINATO (2010)
PÃO COM LINGUIÇA (2009)
TODA FORMA DE AMOR (2009)
NEGROS DIAS (2008)
As imagens acima são de alguns espetáculos de conclusão da nossa oficina. São muitos outros, desde 2002, todos com texto escrito por mim especialmente para as turmas, e com direção de MARGARIDA LEONI PEIXOTO.
A próxima turma inicia dia 8 de agosto, com aulas às segundas e quartas, das 19h às 21h45min, no Centro Cultural Cia de Arte (Andradas, 1780, Centro de Porto Alegre). As apresentações do espetáculo resultante da oficina serão apresentados em dezembro.
Maiores informações pelos fones (51) 3226-9260 ou 9911-6831
terça-feira, 19 de julho de 2011
Poesia
Os filmes coreanos a que tenho assistido nos últimos tempos são sempre surpreendentes. Misturam temas difíceis de serem relacionados, e talvez seja exatamente esse o segredo da originalidade desse cinema. Poesia (2010) não foge a essa regra, e conta a história de uma mulher de 66 anos que começa a sofrer os primeiros sintomas do Mal de Alzheimer, quando se dispõe a frequentar aulas de como escrever poesia. Junto a esse tema principal, o filme aborda um suícídio, um estupro coletivo, a sexualidade no fim da vida e a decadência física. Momentos de poesia fílmica tornam o filme uma experiência bela e marcante. Está nas locadoras, para quem quiser ver uma obra rica e de conteúdo superior.
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Richard Burton (1925-1984)
O ator galês Richard Burton deixou sua marca no teatro e no cinema do século XX. Assisti a duas entrevistas concedidas por ele à BBC, nos anos 1970, e fiquei impressionado com a informação de que ele fumava de 60 a 100 cigarros por dia, além de ser alcoólatra. Perguntado pelo repórter se, pela excessiva ingestão de tabaco, ele não temia ter câncer de pulmão ou um AVC, Burton respondeu que sim: estava em seus planos largar o cigarro. Mas, que eu saiba, ele não conseguiu, e morreu precocemente, com menos de 60 anos, de uma hemorragia cerebral.
Os colegas de cena de Burton afirmavam ser ele de difícil convívio, compensada essa má convivência com os belos resultados conseguidos em suas atuações. Jamais ganhou um Oscar, apesar de ser indicado várias vezes: por Eu te matarei, querida (1952) como Ator Coadjuvante, mas nas seis indicações seguintes como protagonista - O manto sagrado (1953), Becket, o favorito do rei (1964), O espião que veio do frio (1965), Quem tem medo de Virginia Woolf? (1966), Ana dos mil dias (1969) e Equus (1977).
Burton teve dois tumultuados casamentos com Elizabeth Taylor (sim, dois: eles se divorciaram da primeira vez e casaram de novo, anos depois), e posso imaginar as bebedeiras conjuntas que devem ter vivido, já que Liz Taylor era igualmente alcoólatra.
Coração louco
Gosto de acompanhar os trabalhos de atores e atrizes que são premiados por seus trabalhos em festivais (Oscar, Berlim, Veneza, Cannes, etc.), porque é possível aprender, e muito, com a observação de grandes intérpretes. Esse é um dos motivos da minha incompreensão diante de determinados artistas que se recusam, sistematicamente, a acompanhar o que acontece nos nossos palcos. Essa incongruente não-curiosidade só é explicável por dois motivos: ou o artista acredita, equivocadamente, que já está "pronto" e nada mais tem a aprender com o que o rodeia; ou não gosta de fato do que faz, transformando seu ofício apenas em um meio de subsistência, tão mecânico quanto carimbar formulários em um escritório.
Mas falando sobre grandes interpretações, para mim, que sou ator (e incompleto e insatisfeito por definição), assistir a um trabalho como o de Jeff Bridges em Coração louco (Crazy heart, EUA, 2009) proporciona refletir sobre a técnica e embevecer-se com o resultado.
Interpretando o cantor de música country decadente Bad Blake, Bridges entrega um trabalho de composição delicado e merecidamente premiado com o Oscar de Melhor Ator. Bridges que atuou tão bem em filmes como A última sessão de cinema (1971), Starman- O homem da estrelas (1984), O silêncio do lago (1993), O grande Lebowski (1998) e Bravura indômita (2010) é versátil, carismático e possui o timing da câmera: sabe que fazer pouco, mas com conteúdo, é quase infalível.
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