Marcelo Ádams

Marcelo Ádams

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Primeiros passos


Sempre li muito, desde pequeno. Minha mãe gosta de contar que aprendi a ler e escrever sozinho, aos quatro anos. Sozinho não é bem o termo, mas sem dúvida a vontade e o esforço foram todos meus. Dentro da bruma da memória em que estão os primeiros anos da minha vida, lembro que adorava ler gibis, da Disney e da Turma da Mônica, especialmente. Mas também havia o gibi do Popeye, da Luluzinha e do Bolinha, e os que eu menos gostava, de super heróis, que achava incompreensíveis na maioria da vezes, como os da Marvel. Alguns anos depois, me encantariam os gibis de horror, com histórias de monstros, criaturas estranhas e todas as escabrosidades imagináveis. Um desses gibis chamava-se Cripta. Lembro que eu olhava as "figuras" dos gibis e perguntava, para os mais velhos, que som tinham as letras. Foi assim que, um belo dia, surpreendi minha família já sabendo juntar as letras e formar palavras, e com uns garranchos que significam meu nome: Marcelo.
A partir daí, nunca mais deixei de ler, muito. Nem mesmo na fase da adolescência, quando nos tornamos arredios e pensamos mais em festas do que qualquer outra coisa. Desde cedo, também, comecei a escrever historinhas, pequenos contos, inspirados nos filmes que eu assistia no Madrugadão (que depois seria sucedido pelo Corujão da Globo, que está aí até hoje). Apesar de estudar a vida toda no turno da manhã, não abria mão de assistir os filmes da Globo, que passavam diariamente, cada dia com um nome diferente de sessão.
Por exemplo, a segunda-feira era o dia do Classe A, uma sessão de filmes legendados. Às terças, era a vez do Festival de Sucessos, tinha a Quinta Espetacular e assim por diante. Naquela época eram exibidos muitos clássicos em preto e branco, verdadeiras relíquias dos anos 1930, 40 e 50, com aquelas dublagens deliciosas, anunciadas por uma voz que caprichava no som dos SS e RR. Algo como "A Screen Gems (?) apresenta...", ou "Dublado nos estúdios da Dublasom, Guanabara". Foi assim que comecei também a minha paixão pelo cinema e pela necessidade de contar histórias. Aqueles filmes antigos contavam histórias interessantes, e eu também queria fazer aquilo.
Meu interesse consciente pelo teatro surgiu vários anos depois do amor pelo cinema. Achei que seria mais fácil, e mais próximo de mim, contar histórias com o teatro que, como já dizia Grotowski, nada mais é que o encontro entre um espectador e um ator (ou perfomer, conforme a evolução do teórico polonês).
Posso então dizer que foi o cinema que me levou para o teatro. Hoje, já tendo feito alguns filmes e alguma teledramaturgia, posso afirmar que nada se compara ao teatro. É o teatro que me deixa mais à vontade, como artista. É o teatro que domino como linguagem, porque depende, basicamente, de mim, apesar de ser uma arte de grupo. Mas na hora do "vamos ver", o ator está só, no palco, e tem que resolver tudo. O cinema é tão cheio de parafernálias e ações paralelas. Gosto das coisas que fiz, é claro. Mas tenho a sensação de que não estou totalmente à vontade, como no palco. Alguém disse, acho que Paulo Autran, que o teatro é a arte do ator, o cinema é a arte do diretor e a televisão a arte do anunciante. Concordo totalmente. As exceções só confirmam a regra.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

O médico à força no Teatro Renascença













Volta a cartaz, no dia 27 de fevereiro, O médico à força, a mais recente produção da Cia. de Teatro ao Quadrado. O médico à força é um texto escrito por Moliére, em 1666, e que teve, na versão do nosso grupo, um upload estético. Inspirados pelas chanchadas brasileiras da produtora cinematográfica Atlântida, nossa montagem homenageia a atmosfera ingênua e bem-humorada daquelas "fitas" estreladas por gente como Oscarito, Grande Otelo, Zezé Macedo e Dercy Gonçalves. Outra das nossas inspirações é o gênero farsa, que, ao contrário do que alguns possam afirmar, não se resume apenas à farsa medieval, que por sua vez é uma espécie de continuação da farsa atelana. A farsa, como qualquer gênero teatral, evolui e se modifica. Assim, temos a tragédia grega, em V a.C., mas também temos a tragédia jacobina, ou a elizabetana, nos séculos XV e XVI. Da mesma forma que temos o melodrama à moda de Pixèrecourt, por volta de 1800, temos o melodrama televisivo das telenovelas brasileiras. A farsa, igualmente, passa pela Idade Média e chega ao teatro de boulevard francês e ao music hall norte-americano. Como se vê, gênero puro é gênero morto.
Mas voltando à vaca fria, nossa montagem volta para o Teatro Renascença (Av. Erico Veríssimo, 307, Centro Municipal de Cultura de Porto Alegre), com temporada de quatro semanas, se estendendo até 22 de março, às sextas e sábados às 21h e aos domingos às 20h. Desta vez, com o reconhecimento de quatro indicações ao Prêmio Açorianos de Teatro, Melhor espetáculo, Melhor ator (Marcelo Adams), Melhor atriz coadjuvante (Anna Fuão) e Melhor figurino (Rô Cortinhas).
Os ingressos custam R$ 20 e R$ 10 (estudantes, classe artística, maiores de 60 anos e Clube ZH).
Molière, um dos maiores dramaturgos ocidentais, e certamente o maior comediógrafo depois de Aristófanes, merece ser melhor conhecido. Em Porto Alegre, desde 2004, quando nós da Cia. de Teatro ao Quadrado montamos a genial Escola de mulheres, esse brilhante francês não é encenado por grupos locais. Espero que, como Shakespeare, ele encontre muitos outros incentivadores em nossos palcos.


sábado, 21 de fevereiro de 2009

Quartett


Por esses dias tenho finalmente feito algo que, há tempos, já devia ter resolvido: passar para DVD velhas fitas em VHS, para preservar imagens que guardo, algumas há 15 anos. Entre as fitas que tenho recuperado para uma mídia mais durável, encontrei várias entrevistas minhas, em programas como Jornal do Almoço, Estação Cultura, Palavra de Mulher (sim, o programa cult da Marley Soares, na Guaíba), Palco (o extinto e para sempre lembrado programa que tratava exclusivamente de ARTE na TV Com) e Estúdio 36. Também estou salvando do mofo algumas gravações de peças que eu ou a Margarida fizemos (como a estreia dela nos palcos, Vida de cachorro, de 1993). E, entre essas fitas, recuperei Quartett, a montagem que eu e a Lúcia Bendati fizemos em 1999, como projeto de graduação em Interpretação teatral dela, no DAD.
Quartett, do dramaturgo alemão Heiner Müller, escrita em 1982, é uma recriação do romance epistolar As relações perigosas, do francês Choderlos de Laclos, escrito exatamente 200 anos antes, em 1782. Müller, como é comum em sua dramaturgia a partir dos anos 1970, dá poucas indicações para o possível encenador de sua obra. As rubricas são raras e, em Quartett, resumem-se a informar que a ação se passa ou em um bunker ou em um salão de baile ou em nenhum desses lugares; ou seja, Müller quer dar a maior liberdade possível para que a poesia de suas palavras ganhe as mais variadas versões.
A recriação do dramaturgo alemão coloca em cena dois personagens: Valmont e a Marquesa de Merteuil, figuras que apenas têm prazer com a sedução do outro. Esses dois predadores encarnam, em um jogo rico em nuances, outras personagens. Assim, em um quarteto de figuras que existem ou não, a poesia ácida de Müller é lançada. É claro que há a famosa desconstrução heinermülleriana, e as atordoantes imagens, que às vezes se repetem (por exemplo, a imagem da mulher com a cabeça dentro do forno a gás, arroxeada e morta, aparece em Quartett e em Hamletmachine). Quartett é um petardo verbal, e um grande desafio para o encenador, já que não propõe ações concretas. De resto, essa é uma das características da dramaturgia contemporânea, vide Na solidão dos campos de algodão, de Bernard-Marie Koltès, que também coloca em cena dois personagens que falam muito, em longos monólogos, muitas vezes escapando para o terreno lírico, com um fiapo de história a uni-los. A dramaturgia dos últimos anos vem impregnada pelo lírico e pelo épico, deixando que o dramático seja apenas um de seus constituintes (ao contrário do que apregoava o velho Aristóteles).
Mas voltando à nossa montagem de 1999, revendo aquelas imagens fiquei bastante surpreso com a qualidade de algumas opções cênicas. Afora o fato de termos, eu e a Lucinha, evoluído artisticamente em 10 anos, percebo uma garra e uma entrega muito interessantes. Algumas ingenuidades não obscurecem o bom resultado geral, que contou com a iluminação do Karrá e com figurinos de Antônio Rabadan. E neste ano, em que Porto Alegre receberá a brilhante Isabelle Huppert com uma montagem de Quartett, fico muito curioso em saber que cara eles darão às fantasias de Heiner Müller, que já tiveram até um frigorífico como cenário, na versão de Gerald Thomas, com Ney Latorraca. Vamos aguardar setembro.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Gus Van Sant


Posso me considerar um fã do cineasta norte-americano Gus Van Sant. Acompanho o trabalho dele há vários anos, e creio ter visto a maioria de seus filmes. Os pouco conhecidos e que primam pela bizarrice, como Até as vaqueiras ficam tristes, em que Uma Thurman interpreta uma lésbica de polegares imensos, uma produção de 1993. Os que trazem o homossexualismo como tema principal, como Garotos de programa, de 1991, com Keanu Reeves e River Phoenix, e o recente Milk- A voz da igualdade, de 2008 (que aparece na foto logo acima; à esquerda Sean Penn personificando Harvey Milk e, ao seu lado, o verdadeiro político assassinado na San Francisco de 1978). Os que tratam de alguma forma, da imersão no mundo das drogas, como Drugstore cowboy, de 1989, com Matt Dillon, e Last days, de 2005, este último inspirado nos últimos dias de Kurt Cobain, vocalista do Nirvana, e seu suicídio. Ainda aqueles filmes que são inegáveis obras-primas, e que têm a juventude e seus dilemas como motor, caso dos extraordinários Elefante, de 2003, e Paranoid park, de 2007. Só de passagem, dá para mencionar que Van Sant é versátil, o que não significa que acerte sempre. Fez Gênio indomável, "filme de Oscar" de 1997; Psicose, de 1998, uma refilmagem totalmente desnecessária de Hitchcock; Procurando Forrester, de 2000, uma das últimas aparições de Sean Connery, que aparentemente se aposentou. Há ainda Um sonho sem limites, talvez o primeiro papel de verdadeiro destaque de Nicole Kidman, em 1995, uma pequena pérola de humor negro.
Tudo isso para dizer que assisti Milk, um dos filmes cotados para o Oscar, com oito indicações. Desta vez, Van Sant foge de qualquer experimentalismo e segue uma narrativa bastante clássica, mas nem por isso inferior. Sean Penn, como sói acontecer (essa expressão tem o merecido crédito de Gisela Habeyche), está excelente, e muito convincente no papel do protagonista. Harvey Milk foi uma espécie de vereador na San Francisco dos anos 1970, e lutava pelos direitos dos gays. Teve sucesso em uma de suas batalhas, mas foi assassinado por um colega. O filme não chega a empolgar, mas é bonito, digno, tem atuações sólidas e tudo o mais. Van Sant sabe fazer cinema mais acadêmico, mas prefiro quando ele inova ou quebra com as normas cinematográficas. Como esquecer as longas sequências em que as personagens são seguidas, pelas costas, pela câmera, como em Elefante, Paranoid park e Last days?

Prison break

Há algumas semanas, a Globo começou a exibir, no começo da madrugada, uma série produzida pela Fox norte-americana, chamada Prison break. A premissa da primeira temporada, exibida em 2005 - e que já está na quarta temporada -, era a de que Michael Scofield, um jovem e inteligentíssimo engenheiro, provocava sua própria prisão assaltando um banco, para ser encarcerado no mesmo presídio que seu irmão Lincoln Burrows, condenado à morte na cadeira elétrica pelo suposto assassinato do irmão da vice-presidente americana.
A série mostrava, na primeira temporada, a convivência nada pacífica de Michael e seu irmão com outros presos (que se dividem em facções, como brancos, negros e latinos) e com os guardas penitenciários. Ao mesmo tempo, Michael, uma espécie de McGiver em nova versão, dava andamento ao seu plano mirabolante de fuga, para salvar o irmão da iminente execução.
Não preciso ocultar que Michael, seu irmão e outros seis presos conseguem escapar no último capítulo.
A segunda temporada, que estou avidamente assistindo em DVD, mostra os oito fugitivos tentando sobreviver e partindo em busca de uma fortuna de 5 milhões de dólares, enterrada por um velho prisioneiro, já morto, em algum lugar ermo de Utah.
É fascinante como os americanos têm gás para manter o interesse sempre vivo em suas séries, sem nenhum pudor de lançar mão de situações rocambolescas, com viradas surpreendentes e a todo momento. Prison break é uma espécie de folhetim policialesco, criando conexões cada vez mais complexas para enredar o espectador em sua teia, que envolve o FBI, o governo dos EUA, dinheiro perdido, assassinatos ocultos e até um pouquinho de humor, como ensinava o bom teatro elizabetano.
Suspension of disbelief, conforme a expressão cunhada pelo poeta e filósofo da estética Samuel Taylor Coleridge, em 1817, é a aceitação - por parte do receptor de uma obra de arte -, das premissas do artista, por mais fantásticas e impossíveis que possam parecer. Só assim é possível absorver (quase) totalmente os efeitos desejados pelo autor. Assistir Prison break, e, como de resto, a grande parte da produção ficcional, é suspender nossa descrença no improvável e no pouco verossímil. O retorno pode ser bem satisfatório, e confesso que fecho um pouco os olhos aos pequenos absurdos que povoam a narrativa da série, mirando no prazer de assistir ações muito bem construídas e personagens bem caracterizados (como o psicopata T-bag, interpretado magnificamente por Robert Knepper). Só para dar um exemplo, os detentos, dentro dos muros do presídio têm à sua disposição dois orelhões para fazer ligações para fora. E o melhor é que esses telefones não são grampeados, os presos fazem mil e uma combinações e ninguém fica sabendo de nada!
Em breve, começo a temporada 3. Recomendo.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

De volta ao DAD


O filme que estou fazendo teve como um de seus cenários uma sala que me traz muitas lembranças. Ontem gravamos as cenas localizadas no que seria o quarto do personagem que interpreto - João -, que vive em uma espécie de quarto de pensão. E o local que desempenhou essa função foi a sala 2 do DAD (Departamento de Arte Dramática da UFRGS), onde tive muitas aulas de Expressão Vocal com a grande professora Marlene Goidanich. A "sala da Marlene", que é como sempre me referirei àquele espaço, apesar de ela já ter se aposentado há anos fica no prédio antigo do DAD, aquele que tem entrada pela Salgado Filho. As janelas da sala 2 se abrem para a confluência entre a Salgado Filho e a João Pessoa, um local movimentado e barulhento. Nas aulas da Marlene, em que alternávamos exercícios para aperfeiçoamento da voz falada com músicas cantadas por nós ao piano, às vezes tínhamos que suportar o calor do ambiente, pela necessidade de fechar as janelonas, por causa do barulho lá fora.

O mais legal é que o piano em que a Marlene nos ensinava a cantar canções da história do teatro universal, em grego, latim, inglês, espanhol, francês e alemão (além de português), ainda está lá! E o melhor: utilizamos o piano como elemento da cenografia de A palavra roubada. Assim, o velho piano de parede da Marlene Goidanich agora pertence ao mequetrefe João.

Gostei muito do clima do primeiro dia de trabalho, com um café da manhã, cedinho, na Lancheria do Parque. A equipe é uma maravilha, todos são pessoas excelentes e muito a fim de fazer um bom trabalho, mas destaco a diretora Mirela Kruel, a Ina Schneider, assistente de direção, a Simone Buttelli, produtora de elenco e o Rodrigo Fiatt, meu colega de cena, e excelente ator, em seu último ano como aluno do DAD.

Amanhã continuamos com as gravações, do assalto que o meu personagem e o do Rodrigo fazem ao Justino (interpretado por Milton Mattos). A locação é a uma quadra do DC Navegantes, externa, e acho que vou torrar ao sol, pois qualquer três-minutos exposto ao astro-rei me deixa totalmente vermelho. Vou tentar amenizar com litros de protetor solar.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Outra palavra: Milton Mattos


Depois de estar ausente por algumas semanas - não por ter viajado, pois fiquei em Porto Alegre, mas por ter me dedicado a outras coisas - retorno para falar do filme que comentei que faria, no post anterior a este. A palavra roubada, de Mirela Kruel, contará com apenas quatro atores, e um deles, para minha satisafação, é Milton Mattos, uma das personalidades mais importantes para a história do teatro gaúcho. Milton hoje tem 74 anos, é arquiteto e casado com a jornalista Ivette Brandalise. No final dos anos 1950, juntou-se a um grupo de jovens estudantes, entre eles Paulo José, Paulo César Peréio e Fernando Peixoto - e por onde também passou, entre outros, Ítala Nandi -, para fundar o lendário Teatro de Equipe, cuja sede foi construída na General Vitorino, no Centro de Porto Alegre. Milton é uma pessoa agradabilíssima, cheia de vida e que recorda com prazer sua vida no Equipe. Apesar do grupo ter durado apenas quatro anos (de 1958 a 1961, mais ou menos), o Equipe teve uma carreira de respeito, tendo sido o primeiro grupo a montar Esperando Godot, de Samuel Beckett, no Brasil. Milton conta que a tradução que eles usavam, a princípio, nos ensaios, não era boa, e que durante o processo iam modificando-a para deixá-la mais "teatral". Da mesma forma, ele relata a ocasião em que Vinícius de Moraes, nosso grande poeta e compositor, assistiu a uma montagem do Equipe, que reunia poemas encenados, e levou o grupo, impulsivamente e com pouca preparação, em um 7 de setembro, para participar de uma homenagem ao Dia da Pátria na Embaixada do Brasil em Montevidéu.
Perguntei ao Milton, já de olho em seu trabalho como ator, se ele toparia fazer teatro atualmente, depois de afastado tantos anos. Ele me disse que não, só tem feito cinema (atuou em Netto perde sua alma, de Tabajara Ruas e Beto Souza, em 2001), e que não conseguiria suportar a rotina que o teatro propõe, ou seja, voltar todos os dias ao mesmo teatro, ver os mesmos colegas e executar as mesmas ações. Me permito discordar do Milton, pois acho o teatro fascinante nessa sua aparente rotina, em que nada é igual de um dia para o outro, apesar de parecer.
Tenho apenas uma cena com Milton, em que meu personagen distrai o dele, para um assalto, mas me sinto feliz de ter a oportunidade de contracenarmos. Vou levar, no dia em que gravarmos, o meu exemplar do livro Trem de volta: Teatro de Equipe, de Mario de Almeida e Rafael Guimaraens (Porto Alegre: Libretos, 2003) para que ele o autografe.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

A palavra roubada


Mês que vem vou filmar um curta-metragem, com direção e roteiro da cineasta Mirela Kruel, financiado pelo Fumproarte. A palavra roubada conta a história de uma dupla de desocupados, que vivem de pequenos golpes e que, certo dia, assaltam um velho que carregava uma maleta cheia de...velhas cartas de amor! A surpresa com o resultado inesperado do roubo passa a dar lugar a uma fascinação com o conteúdo das cartas. Interpretarei um dos "desocupados", e fiquei super feliz com a oportunidade. Como já escrevi aqui, cinema sempre foi uma paixão declarada (sou até meio enciclopédico em relação a filmes, já vi tanta coisa que os amigos vêm me perguntar quando têm alguma dúvida). Tenho, ainda, dois longa-metragens inéditos, à espera de lançamento: A última estrada da praia, do Fabiano de Souza, da Clube Silêncio, que filmei em 2007, e Quase um tango argentino, do Sérgio Silva, que fiz em 2008.

Iniciarei os ensaios do filme semana que vem. Vai ser melhor ainda, porque a Mirela quer que nós, os atores, criemos as falas, a partir das situações propostas pelo roteiro. Isso é muito interessante, e já fiz isso antes, com o Fabiano de Souza. No filme dele, eu, o Marcos Contreras, a Miriã Possani e o Rafael Sieg, os protagonistas, tínhamos carta branca para criar o texto dentro de uma estrutura pré-definida. É uma experiência que se aproxima do teatro, em alguns aspectos. Depois comento mais sobre o processo.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Torturas de um coração, de Ariano Suassuna

Torturas de um coração
Na próxima terça-feira, dia 20 de janeiro, às 18h, no Santander Cultural (Sete de setembro, 1028), acontecerá a segunda edição do Ciclo de leituras- A dramaturgia de Ariano Suassuna. O evento terá entrada franca, e será apresentada a leitura dramática da peça Torturas de um coração, uma das primeiras escritas por Suassuna, em 1951.
A curiosidade dessa peça curta, que é denominada pelo autor como "Entremez para mamulengo", é que ela inspiraria, alguns anos depois, situações desenvolvidas em sua peça A pena e a lei, esta com três atos, e estreada em 1960.
Entremez é como são chamadas as pequenas dramatizações apresentadas entre os atos de peças longas, especialmente durante o siglo de oro espanhol, no século XVII. Assim, durante os intervalos das funções de peças de Calderón de la Barca ou Lope de Vega, por exemplo, o público tinha a oportunidade de assistir a esses entremezes. Suassuna, como criador do Movimento Armorial, que louva a influência da cultura ibérica na história brasileira e, especialmente, na cultura popular nordestina, faz uso desse formato para Torturas de um coração.
Quem quiser conhecer mais sobre entremezes, uma boa dica é ler os escritos por Miguel de Cervantes, mais conhecido por ser o autor daquele que é considerado o marco inicial do romance moderno, Don Quixote de la Mancha, de 1600. Lá por 1998, o Jessé Oliveira, diretor porto-alegrense, montou um dos entremezes mais legais de Cervantes, A guarda cuidadosa, para teatro de rua.
Mamulengo, ainda seguindo a denominação de Suassuna, é uma corruptela da expressão "mão molenga", uma das habilidades imprescindíveis para quem manipula bonecos.
A leitura conta com Margarida Leoni Peixoto, Thales de Oliveira, Donatto Oliveira, Carla Gasperin, Lorenzo Fontana e eu mesmo no elenco, que também é dirigido por mim.
Quem estiver em Porto Alegre, apareça no Santander!

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Refilmagens

A Elisa Viali, num post, me sugeriu escrever sobre refilmagens, ou remakes, de filmes. Achei legal e resolvi falar sobre alguns. Obviamente sem esgotar a questão, porque, atualmente, pelo menos nos EUA, mais se refazem filmes antigos do que se concebem obras originais. Haja visto a quantidade de filmes de horror japoneses e coreanos que inundam os cinemas com versões americanas. Salvo da vala comum O chamado (The ring, dirigido por Gore Verbinski, em 2002), realmente assustador.
O primeiro filme que me veio a cabeça pela sua completa desnecessidade, foi a versão de Gus Van Sant de Psicose. Van Sant cometeu essa homenagem (sim, pois seu filme era uma cópia colorida do clássico de 1960 de Alfred Hitchcock, com os mesmos enquadramentos, praticamente um clone) em 1998, substituindo os memoráveis Anthony Perkins e Janet Leigh, pelos pouco memoráveis Vince Vaughn e Anne Heche. Me diz: para que refilmar o que já é perfeito, e não poderá ser superado?!
Outro remake, esse transcontinental, é de Acossado, de Jean-Luc Godard, um dos filmes seminais da Nouvelle vague francesa, de 1960, transfomado em Breathless (ou A força do amor, no Brasil), produção de 1983, dirigida por Jim McBride, colocando Richard Gere no lugar de Jean-Paul Belmondo. Os norte-americanos adoram os franceses, mas isso não é recíproco.
Agora, um bom exemplo de refilmagem que supera o original: Ben-Hur: A tale of the Christ, filme dirigido em 1925 nos EUA, por Fred Niblo, foi refilmado como Ben Hur, em 1959, sob a direção de William Wyler. A versão de Wyler foi, durante décadas, o filme vencedor do maior número de Oscar (onze estatuetas). Charlton Heston, no papel de Judah Ben Hur, redime em parte o seu reacionarismo no fim da vida, quando defendeu ferrenhamente o porte de armas nos EUA, apesar dos constante massacres por lá.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

O resto é silêncio

Sou daquelas pessoas que lêem vários livros ao mesmo tempo. Vou me revezando nos títulos, conforme o espírito. De livros teóricos a ficção (e, nos últimos anos, tenho pendido muito mais para os teóricos). Atualmente, leio O dramaturgo como pensador (Civilização Brasileira, 1991), História social da arte e da literatura, de Arnold Hauser (Martins Fontes, 1998) e o recém terminado O resto é silêncio, de Erico Veríssimo (Edições Globo, 1943!).
Este último é uma primeira edição do romance de Erico, adquirido pelo meu sogro (conforme indicação à caneta no início do livro) na Feira das Pulgas (atual Brique da Redenção), em 1983.
Li pouca coisa do Erico Veríssimo e - blasfêmia! - O tempo e o vento não está incluído. Comecei, ainda criança, com Clarissa e As aventuras do avião vermelho, e acabei não adentrando nos romances adultos, porque outro tipo de literatura me tomou completamente a atenção: os livros policiais.
Agora, porém, em período de férias, e com algum tempo sobrando, resolvi ler algo de Erico. O resto é silêncio, de 1943, faz referência em seu título à última fala de Hamlet, na peça homônima, de William Shakespeare (de 1600).
A escritura do romance foi inspirada por uma situação vivida pelo próprio Erico, em 1941, quando presenciou o suicídio de uma jovem que se jogou de um prédio, no Centro de Porto Alegre. No texto ficcional, o suicídio de uma jovem que se lança do alto do Edifício Império, no centro de Porto Alegre, é testemunhado por sete personagens, com vidas e interesses bem distintos. Esse fait divers é o ponto de partida para que o romancista construa um romance com uma deliciosa cor da capital gaúcha dos anos 1940. Apesar de não terem relações entre si, as sete personagens são crias de uma cidade mais provinciana, com muito menos habitantes, e que, consequentemente, faz com que todos acabem se cruzando, mais cedo ou mais tarde.
A estrutura do romance, narrado em apenas dois dias - a Sexta-Feira da Paixão e o Sábado de Aleluia -, com seus conflitos cotidianos, lembra alguns filmes de Robert Altman, como O jogador (1992) e Short cuts- Cenas da vida (1993), ou do recente Crash- No limite (de Paul Haggis, 2004). Personagens que vivem dentro de um mesmo centro urbano se cruzam, a partir de um incidente que os une, de alguma forma. Em Amores brutos (de Alexandre González-Iñárritu, 2000), outro exemplar do gênero, um grupo de pessoas era marcado por um acidente de carro, e passávamos a conhecer as consequências desse desastre em suas vidas.
Uma certa ingenuidade no tratamento de questões políticas (comunismo vs. capitalismo) e um idealismo às vezes demasiado, podem ser contornados levando em conta o fato de ter sido escrito há 65 anos. Vê-se, porém, a habilidade narrativa do autor, e o domínio na criação de personagens bem construídas e com conflitos interessantes, apesar de - e talvez por isso mesmo - comezinhos. Há, inclusive, um trecho em que já se pode entrever o fascínio de Erico por um tema que o levaria a escrever sua mais conhecida obra, de 1949 a 1962:

"Por sobre tudo isso, sempre e sempre o vento e a solidão, os horizontes sem fim e o tempo (...) E ainda as criaturas tristes e pacientes, esperando, vendo o tempo passar com o vento, e o vento agitar os coqueiros e os coqueiros acenar para as distâncias." (O resto é silêncio, Erico Veríssimo, p. 414)

domingo, 11 de janeiro de 2009

O dia em que a Terra parou

Ontem assisti um filme bem ruim, só não foi decepcionante porque eu já esperava que não chegasse aos pés da versão original, de 1951, dirigida pelo Robert Wise (o mesmo de West side story e Star trek). Essa nova versão, que lembra pouco a intensidade do original, mostra a chegada do alienígena Klaatu (interpretado por Keanu Reeves) à Terra, em uma esfera gigante que aterrisa no Central Park, em New York. Resumindo, os aliens vêm para cá com a intenção de detruir a população da Terra, porque seríamos os responsáveis pela destruição do planeta. Õlho por olho, dente por dente. Os aliens chegaram a essa decisão após uma convenção dos povos aliens. Depois de inúmeras inverossimilhanças e diálogos péssimos, o filme termina com os aliens indo embora, resolvendo dar mais uma chance para nós, terráqueos, nos modificarmos e não tratarmos o planeta tão mal.
Hoje em dia, é muito comum ver filmes que exploram o filão da consciência ambiental, para produzir caça-níqueis da pior espécie. Tudo é motivo para salvar espécies em extinção, restaurar a camada de ozônio (que não pode ser restaurada), reverter o aquecimento global. Hollywood voltou suas lentes para o planeta moribundo (estranha ironia, já que os EUA se negam a assinar o Protocolo de Kyoto, para diminuição de emissão de gases), deixando de lado, pelo menos na ficção, aqueles filmes que mostravam os norte-americanos como os escoteiros do mundo, indo salvar povos e raças ameaçados por ditadores. Por trás das boas intenções de produzir um filme com uma "causa", esconde-se o oportunismo de lucrar com os estertores da natureza.
Só para esclarecer uma coisa: sou sócio dos cinemas Guion, e tenho entrada franca em qualquer filme, quantas vezes quiser ver, é uma maravilha. Por isso me submeto a assistir essas bombas, para ter o prazer de criticar depois, e também como curiosidade antropológica. Como no teatro, não se assiste apenas a obras-primas, mas à média, que compõe a maioria da produção.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Primeiros passos


Sempre li muito, desde pequeno. Minha mãe gosta de contar que aprendi a ler e escrever sozinho, aos quatro anos. Sozinho não é bem o termo, mas sem dúvida a vontade e o esforço foram todos meus. Dentro da bruma da memória em que estão os primeiros anos da minha vida, lembro que adorava ler gibis, da Disney e da Turma da Mônica, especialmente. Mas também havia o gibi do Popeye, da Luluzinha e do Bolinha, e os que eu menos gostava, de super heróis, que achava incompreensíveis na maioria da vezes, como os da Marvel. Alguns anos depois, me encantariam os gibis de horror, com histórias de monstros, criaturas estranhas e todas as escabrosidades imagináveis. Um desses gibis chamava-se Cripta. Lembro que eu olhava as "figuras" dos gibis e perguntava, para os mais velhos, que som tinham as letras. Foi assim que, um belo dia, surpreendi minha família já sabendo juntar as letras e formar palavras, e com uns garranchos que significam meu nome: Marcelo.


A partir daí, nunca mais deixei de ler, muito. Nem mesmo na fase da adolescência, quando nos tornamos arredios e pensamos mais em festas do que qualquer outra coisa. Desde cedo, também, comecei a escrever historinhas, pequenos contos, inspirados nos filmes que eu assistia no Madrugadão (que depois seria sucedido pelo Corujão da Globo, que está aí até hoje). Apesar de estudar a vida toda no turno da manhã, não abria mão de assistir os filmes da Globo, que passavam diariamente, cada dia com um nome diferente de sessão.


Por exemplo, a segunda-feira era o dia do Classe A, uma sessão de filmes legendados. Às terças, era a vez do Festival de Sucessos, tinha a Quinta Espetacular e assim por diante. Naquela época eram exibidos muitos clássicos em preto e branco, verdadeiras relíquias dos anos 1930, 40 e 50, com aquelas dublagens deliciosas, anunciadas por uma voz que caprichava no som dos SS e RR. Algo como "A Screen Gems (?) apresenta...", ou "Dublado nos estúdios da Dublasom, Guanabara". Foi assim que comecei também a minha paixão pelo cinema e pela necessidade de contar histórias. Aqueles filmes antigos contavam histórias interessantes, e eu também queria fazer aquilo.


Meu interesse consciente pelo teatro surgiu vários anos depois do amor pelo cinema. Achei que seria mais fácil, e mais próximo de mim, contar histórias com o teatro que, como já dizia Grotowski, nada mais é que o encontro entre um espectador e um ator (ou perfomer, conforme a evolução do teórico polonês).


Posso então dizer que foi o cinema que me levou para o teatro. Hoje, já tendo feito alguns filmes e alguma teledramaturgia, posso afirmar que nada se compara ao teatro. É o teatro que me deixa mais à vontade, como artista. É o teatro que domino como linguagem, porque depende, basicamente, de mim, apesar de ser uma arte de grupo. Mas na hora do "vamos ver", o ator está só, no palco, e tem que resolver tudo. O cinema é tão cheio de parafernálias e ações paralelas. Gosto das coisas que fiz, é claro. Mas tenho a sensação de que não estou totalmente à vontade, como no palco. Alguém disse, acho que Paulo Autran, que o teatro é a arte do ator, o cinema é a arte do diretor e a televisão a arte do anunciante. Concordo totalmente. As exceções só confirmam a regra.

Ariano Suassuna em Porto Alegre


Na próxima terça-feira, dia 13 de janeiro, às 18 horas, inicia no Santander Cultural, no centro de Porto Alegre, o Ciclo de Leituras Dramáticas de Ariano Suassuna, que se estenderá até dia 10 de fevereiro, sempre às terças.

A idéia é que, durante cinco semanas, cinco diretores diferentes dêem suas versões para textos dramáticos do grande autor paraibano (de nascença, pois viveu a maior parte de sua vida em Pernambuco).

No dia 13 estreia o projeto com a leitura de Uma mulher vestida de sol, dirigida por Luciano Alabarse. Dia 20, é a minha vez de dirigir Torturas de um coração. Depois, dia 27 é a Luciana Éboli, dia 3 de fevereiro a Jezebel de Carli e dia 10 o Jessé Oliveira.

Uma mulher vestida de sol é considerada a única peça séria de Suassuna, obviamente que não no sentido artístico, mas por sua temática. O próprio autor a chama de tragédia, o que não deixa de ser verdade. Ambientada no sertão pernambucano, a peça escrita em 1947 - a primeira que escreveu - trata de um conflito entre dois ramos de uma família, e a luta pela terra que habitam, que um e outro dizem ser sua. Vivem as duas facções separadas por uma cerca, e é à volta desse significativo elemento cênico que se desenvolve o conflito. É claro que a sempre eficiente temática do amor proibido, à la Romeu e Julieta também está presente. Nesse caso, são dois cunhados que lutam, enquanto seus filhos se amam secretamente.

Convido a todos que estiverem na cidade a comparecerem, e conhecer um pouco mais da obra de Suassuna, praticamente desconhecida, exceto por Auto da Compadecida. No mesmo Santander, está acontecendo a mostra Iluminogravuras, com muitas imagens interessantes.






sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Apareceu a Margarida

Ontem, fui assistir ao espetáculo do Eduardo Kramer, Apareceu a Margarida, que tem Renato Del Campão como protagonista e Jairo Klein como o aluno humilhado. Há uns 3 anos, eu pensava seriamente em dirigir esse texto do Roberto Athayde, com a minha mulher Margarida, interpretando a temível professora Dona Margarida. Acreditava que a coincidência de nomes poderia ser uma bela brincadeira metalinguística (sem trema), sabe como é?...
Algum tempo depois, fiquei sabendo que o Eduardo e o Renato estavam pensando em montar, o que acabou com meus planos. É a segunda montagem que assisto dessa peça. A primeira foi dentro do DAD, em um projeto de graduação da Marina de Oliveira, que hoje já não faz mais teatro, mas um Doutorado em Letras na PUCRS - por falar nisso, ela deve estar agora em Portugal, fazendo o "sanduíche" dela.
O que ouvi de algumas pessoas é que o texto de Athayde seria datado, ou seja, trataria de questões muito próprias da década de 1970, quando foi escrito, e já estaria superado em sua temática. Com isso não concordo, não posso concordar. Autoritarismo, por mais que se encaixe como uma luva na crítica ao regime militar, existe em qualquer época, mesmo que em algumas ele seja autorizado e institucionalizado como prática oficial.
Além disso, o autoritarismo e sadismo de Dona Margarida acontecem, acredito, dentro de relações de poder de qualquer tipo. No caso de Apareceu a Margarida, a escolha por uma turma da quinta série apenas ressalta o quão indefesos podemos estar frente a uma força desgovernada. Mas sadismo e tortura mental acontecem em relações de trabalho, dentro da família, entre "amigos"...
O que acredito é que uma escolha acertada, em termos de encenação, pode determinar, ou não, o alcance que a crítica ao autoritarismo que o texto contém terá junto ao público. No caso do Teatrofídico, o grande acerto é a persona de Renato, que, com seu humor enlouquecido, característico de outras montagens dele, tanto como ator quanto como diretor, acrescenta uma dose de irracionalidade que funciona bem, em boa parte da peça. Está certo que o primeiro ato funciona melhor que o segundo, mas, no cômputo geral, é um espetáculo que acontece.
O que menos me agrada são algumas ideias do Eduardo, como misturar música eletrônica com uma encenação que tem uma cara anos 1970. Fica estranho. Da mesma forma, quando Dona Margarida adquire uns trejeitos de biba do século XXI, isso me distancia. Gostaria de ver Dona Margarida menos enlouquecida e mais perversa.
Por fim, quero dizer da minha admiração pelo Renato, que merecidamente está concorrendo ao Açorianos de Melhor Ator por Apareceu a Margarida. Já assisti muitos trabalhos com ele. Mas é uma peça pouco conhecida, que só cumpriu uma microtemporada, que me agrada mais que todos os outros: trata-se de Cinturão de fogo, uma comédia desenfreada em que Renato e Lila Vieira interpretavam dois negros que queriam fazer sucesso como artistas. Eu chorei de tanto rir, literalmente, quando assisti à montagem na Sala Carlos Carvalho, em 1992.
Acredito que a nova produção do Teatrofídico tem muito fôlego para permanecer em cartaz por longo tempo, enchendo a sala, como aconteceu ontem na sala 302 da Usina. Sucesso!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Larissa Maciel

Fiquei muito orgulhoso quando soube, no final de 2007, que a Larissa Maciel, atriz porto-alegrense que agora estrela a minisserie Maysa, na Globo, havia sido selecionada para encarnar a protagonista da nova aposta de Manoel Carlos e Jayme Monjardim. Conheço a Larissa há mais de dez anos. Ela se formou em Interpretação pelo DAD e, apesar de não termos sido colegas de turma, eu a via pelos corredores de lá. Em 2001, chegamos a fazer uma festa de aniversário coletiva, dos escorpianos que comemoravam a mudança de idade - eu, ela e a Lúcia Bendati -, no Namastê, da Rua da República. Trabalhei com ela apenas uma vez, em uma leitura dramática, em 2006, que fazia parte de um ciclo de leituras de peças do Ibsen, apresentadas no Solar Paraíso. A peça era Solness, o construtor, com direção do Decio Antunes, eu interpretava o Solness e ela a jovem e obstinada Hilda Wangel, a responsável pela derrocada e destruição do protagonista.
Fora isso, assisti o trabalho de Larissa algumas vezes no palco (O menino maluquinho 2000, dirigido pela Adriane Mottola, Os sobreviventes, dirigido pelo Marcelo Aquino, que também está radicado no Rio de Janeiro, e Hotel Rosa-Flor, com direção do Júlio Conte, onde ela contracenava com minha mulher, Margarida Leoni Peixoto) e na TV, em Histórias Curtas e A ferro e fogo.
Sempre achei a Larissa uma boa atriz, mas acreditava que era mais adequada justamente para interpretar personagens na TV e no cinema, onde parecia atingir um melhor resultado pela sutileza e contenção, que são mais freqüentemente exigidos no audiovisual. A Larissa tem isso com ela, essa expressividade no olhar, no pequeno gesto, que aparecem na tela de uma maneira muito interessante. É por isso que acredito que ela está começando uma carreira muito promissora na TV. Além de beleza e talento, Larissa é muito inteligente, o que faz a diferença em um mundo muitas vezes fútil e superficial como o da televisão. Torço muito que ela consiga continuar emendando um trabalho no outro.
A última vez que a vi pessoalmente foi em março do ano passado, no Rio de Janeiro. Eu e a Margarida fomos ao teatro João Caetano, no Centro do Rio, assistir a uma montagem do musical O baile (que teve uma versão cinematográfica em 1983, dirigida pelo Ettore Scola). Ao final do belo espetáculo, uma superprodução, nos dirigíamos para a saída quando olhei para o fundo da platéia e lá estava Larissa, acompanhada de dois amigos. Ela nos abraçou, genuinamente emocionada, e disse estar louca de saudades de Porto Alegre, e de ouvir o sotaque gaúcho (Larissa já estava há alguns meses no Rio, passando pela longa preparação que teve para interpretar Maysa). Ela nos disse que todo o processo estava sendo muito puxado, mas prezeiroso. Nos despedimos e desejamos muita sorte.
Tenho acompanhado os capítulos de Maysa (hoje não vou assistir, mas pedi para o Clóvis Massa gravar para mim), e cada vez me convenço mais de que a Larissa está no caminho certo.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Entrando no mundo dos blogs

Sempre fui daquelas pessoas que não têm muita intimidade com essa tal de informática (palavra meio antiga, mas, para mim, acho que vale). Tá certo que tenho e-mail há uns 10 anos, mas computador, para mim, sempre serviu para pouca coisa além de consultar o Outlook e imprimir umas coisas. No entanto, tenho visto por aí (ou lido) uns blogs bem legais, e fiquei com vontade de experimentar como seria escrever algumas coisas e não saber exatamente quem as lê (exceto aqueles que deixam algum comentário. Então, estreando no mundo dos blogs, aqui estou. Se alguém vai me ler, não sei. Talvez seja bom divulgar esse blog nos blogs que visito. Vou fazer isso.
E já que 2009 está apenas começando, e será, certamente, um ano decisivo em minha vida, desejo a todos que também tenham decisões importantes e boas nos próximos meses.