Marcelo Ádams

Marcelo Ádams

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

TEATRO EM PORTO ALEGRE: parte 5- PRÊMIO BRASKEM EM CENA

Entre 2006 e 2020, uma parceria entre a Braskem e o Porto Alegre em Cena- Festival Internacional de Artes Cênicas premiou, por meio de troféus criados pela artista plástica Arminda Lopes e de um prêmio em dinheiro, os artistas e espetáculos considerados os melhores nas categorias Melhor Espetáculo, Melhor Diretor ou Coreógrafo/Criação/Concepção, Melhor Ator ou Bailarino/Performer, Melhor Atriz ou Bailarina/Performer, Melhor Espetáculo pelo Júri Popular e Categoria Destaque. Naquele período, o Braskem em Cena se tornou uma das premiações mais importantes do teatro do Rio Grande do Sul, ao lado do Açorianos e do Tibicuera.


15º BRASKEM EM CENA- 2020
Melhor Espetáculo
CARCAÇA


Segundo Melhor Espetáculo
TERRA ADORADA


Melhor Concepção/Criação
FRANCISCO GICK
por HIPERGAIVOTA



Melhor Performer
JOANA AMARAL
por Projeto Lilith: pixações em corpos histéricos

Melhor Performer
JOÃO GABRIEL OM
por Carcaça

Prêmio destaque/Elementos cênicos
PROJETO LILITH- PIXAÇÕES EM CORPOS HISTÉRICOS

Melhor Trilha Sonora
CAIO AMON
por 206820

Melhor Espetáculo pelo Júri Popular
PROJETO LILITH- PIXAÇÕES EM CORPOS HISTÉRICOS


***


14º BRASKEM EM CENA- 2019
Melhor Espetáculo
ARENA SELVAGEM
 
 Melhor Diretora
 MIRAH LALINE
por O feio
 
 
Melhor Ator
PAULO FLORES
por Meierhold
 
 
Melhor Atriz
SISSI BETINA VENTURIN
por A fome
 
 Categoria Destaque
JOÃO PEDRO DECARLI
pela ousadia da adaptação para o público infantil de um dos textos mais soturnos de Shakespeare, em Macbeth e o Reino Sombrio - Shakespeare para Crianças 


Melhor Espetáculo pelo Júri Popular
ARENA SELVAGEM


***
13º BRASKEM EM CENA- 2018
Melhor Espetáculo
A MULHER ARRASTADA 


  Melhor Diretora
 LIANE VENTURELLA
por Imobilhados


  Melhor Ator
ZÉ ADÃO BARBOSA
por Pequeno trabalho para velhos palhaços

 Melhor Atriz
CELINA ALCÂNTARA
por A mulher arrastada
 


Categoria Destaque
HIATO

 Melhor Espetáculo pelo Júri Popular
QUAL A DIFERENÇA ENTRE O CHARME E O FUNK?


 *****
 12º BRASKEM EM CENA- 2017
Melhor Espetáculo
FALA DO SILÊNCIO


Melhor Diretora
 JEZEBEL DE CARLI
por Ramal 340: sobre a migração das sardinhas ou porque as pessoas simplesmente vão embora 




 Melhor Ator
MARCOS CONTRERAS
por Parque de diversões





Melhor Atriz
PRISCILLA COLOMBI
por Fala do silêncio
(entre Leonardo Machado e Evandro Soldatelli na foto)

(com Leonardo Machado na foto)


Categoria Destaque
ILUMINUS
pela pesquisa apurada e a sinergia entre iluminação, cenografia, 
coreografia, trilha sonora e figurino


Melhor Espetáculo pelo Júri Popular
ILUMINUS



*****

11º BRASKEM EM CENA- 2016
Melhor Espetáculo
O MAL ENTENDIDO


Melhor Diretor
 EDUARDO KRAEMER
por Cadarço de sapato ou Ninguém está acima da redenção



 Melhor Ator
CASSIANO RANZOLIN
por Dona Flor e seus dois maridos
 (Com Kaya Rodrigues na foto)


Melhor Atriz
FERNANDA PETIT
por O mal entendido



 Categoria Destaque
UTA
pelo processo de criação do espetáculo Dança do tempo



 Melhor Espetáculo pelo Júri Popular
AFROME



*****
 
10º BRASKEM EM CENA- 2015
Melhor Espetáculo
AS QUATRO DIREÇÕES DO CÉU


Melhor Diretor 
CAMILO DE LÉLIS
por As quatro direções do céu



Melhor Ator
MARCELO ÁDAMS
por Os homens do triângulo rosa


Melhor Atriz
MIRNA SPRITZER
por Língua mãe. Mameloschn


Categoria Destaque
CLÁUDIA DE BEM
pelo desenho de luz e pela cenografia de A vida dele


Melhor Espetáculo pelo Júri Popular
CIDADE PROIBIDA



*****

9º BRASKEM EM CENA- 2014
Melhor Espetáculo
PEQUENAS VIOLÊNCIAS SILENCIOSAS E COTIDIANAS


Melhor Diretor 
IRION NOLASCO
por O estranho cavaleiro
(Carolta Albuquerque, Irion Nolasco e Jezebel de Carli na foto)


Melhor Ator
CASSIANO RANZOLIN
por Pequenas violências silenciosas e cotidianas


Melhor Atriz
LIANE VENTURELLA
por O estranho cavaleiro


Categoria Destaque
MARINA MENDO
pela concepção do espetáculo Miragem



Melhor Espetáculo pelo Júri Popular
CIRCO DE HORRORES E MARAVILHAS


*****

8º BRASKEM EM CENA- 2013
Melhor Espetáculo
NATALÍCIO CAVALO


Melhor Diretora
CAMILA BAUER
por Estremeço



Melhor Ator
HAMILTON LEITE
por O baile dos Anastácio


Melhor Atriz
THAINÁ GALLO
por A noite árabe



 Categoria Destaque
RAUL VOGES
pela cenografia do espetáculo Casa das especiarias


Melhor Espetáculo pelo Júri Popular
O BAILE DOS ANASTÁCIO



*****

7º BRASKEM EM CENA- 2012
Melhor Espetáculo
BREVES ENTREVISTAS COM HOMENS HEDIONDOS


Melhor Diretora
INÊS MAROCCO
por Incidente em Antares


Melhor Ator
ROBERTO OLIVEIRA
por Um verdadeiro cowboy


Melhor Atriz
MARTINA FRÖHLICH
por Incidente em Antares
 


Melhor Espetáculo pelo Júri Popular
INCIDENTE EM ANTARES



*****

6º BRASKEM EM CENA- 2011
Melhor Espetáculo
WONDERLAND E O QUE M. JACKSON ENCONTROU POR LA


Melhor Diretor
DANIEL COLIN
por Wonderland e o que M. Jackson encontrou por lá


Melhor Ator
DENIS GOSCH
por Hotel Fuck: num dia quente a maionese pode te matar



Melhor Atriz
CAROLINA GARCIA
por A tecelã


Melhor Espetáculo pelo Júri Popular
HYBRIS



*****

5º BRASKEM EM CENA- 2010
Melhor Espetáculo
DENTRO FORA


Melhor Diretor
CARLOS RAMIRO FENSTERSEIFER
por Dentro Fora


Melhor Bailarino
EDUARDO SEVERINO
por Dar carne à memória


Melhor Atriz
FERNANDA PETIT
por Solos trágicos


Melhor Espetáculo pelo Júri Popular
MY HOUSE: NUNCA UM LAR FOI TÃO AGITADO



*****

4º BRASKEM EM CENA- 2009
Melhor Espetáculo
O SOBRADO
 


Melhor Diretor
ZÉ ADÃO BARBOSA
por A arca de Noé


Melhor Ator
DANIEL COLIN
por O médico à força e A vida sexual dos macacos


Melhor Atriz
ARACY ESTEVES
por MarLeni


Melhor Espetáculo pelo Júri Popular
O SOBRADO



*****

3º BRASKEM EM CENA- 2008
Melhor Espetáculo
A COMÉDIA DOS ERROS


Melhor Diretora
ADRIANE MOTTOLA
por A comédia dos erros


Melhor Ator
CARLOS ALEXANDRE
por A comédia dos erros
&
HEINZ LIMAVERDE
por A megera domada


Melhor Atriz
SANDRA POSSANI
por A megera domada


Melhor Espetáculo pelo Júri Popular
MISÉRIA, SERVIDOR DE DOIS ESTANCIEIROS



*****

2º BRASKEM EM CENA- 2007
Melhor Espetáculo
A MISSÃO


Melhor Diretor
DECIO ANTUNES
por A casa e Mulheres insones



Melhor Ator
ZÉ ADÃO BARBOSA
por Fim de jogo


Melhor Atriz
LUCIANA PAZ
por No vão da escada


Melhor Espetáculo pelo Júri Popular
A TEMPESTADE E OS MISTÉRIOS DA ILHA



*****

1º BRASKEM EM CENA- 2006
Melhor Espetáculo
SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO


Melhor Diretora
PATRÍCIA FAGUNDES
por Sonho de uma noite de verão


Melhor Ator
HEINZ LIMAVERDE
por Sonho de uma noite de verão


Melhor Atriz
SANDRA DANI
por Calamidade


Melhor Espetáculo pelo Júri Popular
SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO

sábado, 10 de outubro de 2015

O GATO DE BOTAS: QUEM DISSE QUE SÓ O CÃO É O MELHOR AMIGO DO HOMEM?

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Fiquei muito satisfeito e fui surpreendido com O gato de botas, espetáculo para crianças encenado pela Cia de Teatro Menino Tambor. Daiane Oliveira, diretora do espetáculo e autora do texto, alcançou um ótimo resultado na transformação da conhecida fábula do gato de botas, de Charles Perrault, em um dinâmico, divertido e bem executado musical. Quando se fala em teatro musical, vem logo como referência para nós os grandes espetáculos da Broadway (apesar de que Cats, talvez um inspirador para a montagem do Menino Tambor, estreou em 1981 em Londres, antes do grande sucesso que iniciou em Nova York e resto do mundo), mas aqui, sem a megalomania norte-americana, chega-se a uma bela condensação, com o elenco pequeno e carismático dando conta de atuar, cantar e dançar. A esse respeito, convém lembrar que no Brasil, desde o século XIX, portanto antes do boom da Broadway, o teatro musicado é uma preferência nacional. Alguns críticos até justificam a pouca tradição de uma dramaturgia brasileira pelo estrangulamento cometido pelos gêneros musicais desde os anos de 1860, especialmente no Rio de Janeiro, quando as chamadas "peças sérias" foram ofuscadas pela alegria, descompromisso e descontração associados a espetáculos em que o mais importante era entreter as plateias com ritmos "quentes" como maxixe, fandango e samba, sem contar as operetas vienenses aqui reencenadas. Ou seja, no Brasil, o teatro musical está no DNA.
Por opção da encenação, a ênfase recai sobre atuação e canto, ficando a dança um pouco menos ressaltada, apesar do ótimo preparo físico (e vocal! Que lindas suas vozes) principalmente de Guilherme Ferrêra e Lucas Krug. A trilha sonora de Arthur de Faria é excelente, e muito bem executada ao vivo pelo trio que está visível o tempo todo em cena, mas não fossem as canções tão bem entoadas pelo elenco, não se potencializaria, como o foi, a beleza musical (não encontrei os nomes dos músicos, só reconheci Léo Ferlauto).
Em resumo, O gato de botas é um delicioso divertimento, imagino que também para os adultos, já que não infantiliza (no mau sentido) a encenação, não incorre em pieguices nem menospreza a capacidade das crianças de captarem as brincadeiras com a linguagem teatral. Uma bem acabada produção, em todos os sentidos, do elenco bem escolhido aos elementos visuais e sonoros.

 


domingo, 6 de setembro de 2015

MEREDITH MONK & VOCAL ENSEMBLE: THE SOUL'S MESSENGER

Que privilégio poder assistir - e mais do que isso, ouvir - Meredith Monk e seus parceiros de cena, Katie Geissinger, Allison Sniffin e Bohdan Hilash. Os 51 anos de carreira tornaram essa artista, que transita pelo cinema e pela performance com ímpeto e vontade, totalmente dona de seus recursos, que não são poucos. Li, em ambientes virtuais, alguns espectadores comparando o show de Meredith Monk a uma sequência de trinados de pássaros, em clara depreciação ao dificílimo trabalho que assistimos. Será isso insensibilidade ou dificuldade de ultrapassar a barreira do literal e do representativo? Provavelmente ambos, mesclados. As sonoridades produzidas pelo conjunto são tão sofisticadas, desconcertantes e bem executadas que é impossível não se emocionar com a capacidade que nós humanos temos de produzir beleza. Uma beleza abstrata a desses sons que saem de gargantas potentes. Os sons que produziam muitas vezes não eram compostos de palavras compreensíveis. Mas eram, paradoxalmente, repletos de ideias, significados trançados e de camadas que nos levavam a lugares que só uma imaginação aberta e disponível pode perceber e se deleitar.
Para mim, o momento inesquecível foi este, Madwoman's vision, do álbum Book of days, de 1980:
 

domingo, 26 de julho de 2015

CONCENTRAÇÃO

É preciso concentração para montar um espetáculo teatral sem verba. E foco, e crença na arte, e bom humor, e ombros amigos. E cheque especial. Foi o que aconteceu com a equipe do espetáculo Concentração, contemplado com o Prêmio de Incentivo à Pesquisa Teatral no Teatro de Arena, mas que, dada a alarmante situação do Rio Grande do Sul, teve adiada a liberação do dinheiro, por parte da Secretaria da Fazenda (que é quem detém o poder de pagamento) para depois da estreia. A diretora Ana Paula Zanandréa informava, na conversa com o público depois do espetáculo do dia 25 de julho, que finalmente assinara o contrato, e que, se tudo desse certo, o prêmio seria pago em breve.
A foto que ilustra esta postagem, e que está disponível na internet, não representa o que assisti no Teatro de Arena: é certamente uma imagem de divulgação. Os elementos cenográficos e os figurinos sofreram algumas transformações e aperfeiçoamentos em seu acabamento desde esta imagem. Mas o que quero ressaltar é a provável adaptação/subversão às quais as propostas visuais do espetáculo foram obrigadas, em função do atraso no pagamento do prêmio a que a equipe tinha direito.
Visualmente o espetáculo é muito simples, e provavelmente em função da insegurança sobre a verba prometida, optou-se por um emagrecimento das possibilidades, investindo intensamente no trabalho dos atores e na vivacidade da dramaturgia. Em minha opinião, tal investimento foi um acerto, já que é fato que "beleza não põe mesa", mas tenho certeza de que não há artista que não acredite que a beleza é também importante.
A dramaturgia do espetáculo, atribuída ao grupo, adaptou um romance da escritora belga Amélie Nothomb, de 2005, chamado Acide sulfurique. Como não conheço a obra (e mesmo que a conhecesse), sigo o conselho do escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, que defende que em uma adaptação de uma linguagem para outra deve-se ignorar a linguagem e a obra-modelo, e apreciar exclusivamente a obra-fim: esta deve sustentar-se por si, e ser entendida como autônoma em seus procedimentos. Assim, Concentração apresenta-se, dramaturgicamente falando, como uma obra de pernas firmes, fazendo esquecer que se trata de uma versão dramática de uma narrativa épica. A vivacidade e o dinâmico encadeamento das situações, calcadas inteiramente em uma estrutura dramática (e não pós-dramática, como seria uma possível opção), constroem uma coerência muito bem fundamentada e interessante para o espectador.
Confesso que, nos primeiros minutos do espetáculo, temi que a história da prisoneira Zena (atuada por Priscilla Colombi), que é escolhida para ser uma kapo (nos campos de concentração da Alemanha nazista, kapo era o prisioneiro alçado a "gerente" dos outros presos, responsável por manter a ordem e a disciplina, e cobrar produtividade, se fosse o caso), se encaminhasse para uma espécie de sub-Jogos vorazes, em que a heroína surge como a salvação de toda uma sociedade. No entanto, esse temor logo se mostrou infundado, mesmo que a ideia do reality show (tão cara e reincidente em nossos dias, desde o 1984 de George Orwell) seja o motivo principal que faz a história andar. Em Concentração não há uma heroína com um mundo a ser libertado, mas uma denúncia da exploração midiática da miséria e da violência. O show de Truman, filme de Peter Weir, é uma aproximação mais adequada, assim como Estamos no ar, texto teatral do chileno Marco Antonio de la Parra: o "vilão" é a televisão, ou melhor, os executivos que a dirigem.
Pelos motivos financeiros que expus acima, há uma certa dificuldade na concretização de algumas ideias, relacionadas principalmente ao trabalho dos prisioneiros. Se por um lado a solução do barulho das máquinas de costura é eficaz, por outro, os panos manipulados não atingem plena resolução, até pela variedade de cores e tamanhos. A trilha sonora, um pouco prejudicada pelo abafamento do equipamento do teatro, também me parece merecer mais atenção, assim como a concepção e a execução de alguns figurinos.
Para o final, a cereja. O trabalho dos atores, totalmente absorvidos pela insana necessidade de literalmente desdobrar-se em muitos, é o maior destaque. O ritmo cinematográfico de cortes constantes na narrativa, bem como a apresentação de imagens que, em sucessão, nos transportam a diferentes lugares e situações em uma fração de tempo, são ótimas escolhas. O recurso de retroceder a imagem (rewind) várias vezes, de excelente efeito cênico, e a crítica aos castings aos quais os atores se submetem (inclusive o vocabulário utilizado; esta, sem dúvida, uma private joke) são momentos memoráveis. Priscilla Colombi, Miriã Possani, Frederico Vittola, Pedro Nambuco e Sofia Vilasboas, guiados por Ana Paula Zanandréa, demonstram todo o frescor de atores convictos de suas escolhas, e oferecem aos espectadores pulsantes performances. Ana Paula, em sua segunda direção, aponta para um tipo de encenação fortemente calcada na fisicalidade, sem no entanto abandonar a palavra como importante recurso expressivo. Não sei se esse agrupamento de artistas já tem um nome. Se não, merecem ser batizados e têm desde já o compromisso com os espectadores que, como eu, aguardam o amadurecimento e a continuidade artística desse promissor grupo de artistas da cena.

sábado, 18 de julho de 2015

PAMONHA DE ANTON TCHEKHOV


Fomos convidados, a Margarida Peixoto e eu, para atuar na adaptação do conto Pamonha, do genial contista e dramaturgo russo Anton Tchekhov (1860-1904). A iniciativa foi do Núcleo de apoio pedagógico à educação à distância (NAPEAD) da UFRGS, e tem como meta facilitar o conhecimento de obras representativas da literatura para uma linguagem mais imediata, como é a do audiovisual. O resultado ficou bonito: simples e eficiente.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

CADARÇO DE SAPATO OU NINGUÉM ESTÁ ACIMA DA REDENÇÃO

CADARÇO DE SAPATO OU NINGUÉM ESTÁ ACIMA DA REDENÇÃO É UM DOS VÁRIOS ESPETÁCULOS QUE NESSES ÚLTIMOS MESES ABORDARAM, NO NOSSO ESTADO, A DRAMATURGIA DA PRECOCEMENTE FALECIDA DRAMATURGA INGLESA SARAH KANE, QUE SUICIDOU-SE EM 1999, AOS 28 ANOS DE IDADE. EU MESMO DIRIGI, COM A TURMA DE 6º SEMESTRE DO CURSO DE TEATRO- LICENCIATURA DA UERGS O ESPETÁCULO DESMONTAGEM, UMA VERSÃO DE PSICOSE 4:48, QUE FOI APRESENTADO NO MÊS PASSADO, EM MONTENEGRO. O DAD-UFRGS TAMBÉM APRESENTOU EM DEZEMBRO DOIS ESPETÁCULOS BASEADOS EM SARAH KANE.
TUDO ISSO PARA FALAR DO MAIS RECENTE TRABALHO DA "LEVA SARAH KANE", DIRIGIDO POR EDUARDO KRAEMER COM O TEATROFÍDICO. A ATORMENTADA DRAMATURGA NÃO É DE FÁCIL DIGESTÃO, PORQUE ABORDA INVARIAVELMENTE, EM SEUS ÚNICOS CINCO TEXTOS DRAMÁTICOS, TEMAS DUROS, CHOCANTES. A MORTE, A SOLIDÃO, O DESESPERO, A VIOLÊNCIA, SÃO APRESENTADOS EM DIÁLOGOS OU SOLILÓQUIOS CRUS, COM LINGUAGEM TRANSITANDO ENTRE O POÉTICO E O CHULO. A ENCENAÇÃO DO TEATROFÍDICO MIXA FRAGMENTOS DAS CINCO PEÇAS DE KANE, ACRESCIDOS DE TEXTOS ESCRITOS PELOS ATORES (IDENTIFIQUEI DOIS, PELO MENOS, MAS TALVEZ HAJA MAIS). A ESTÉTICA DA SOBREPOSIÇÃO DAS AÇÕES É O QUE MAIS SALTA À VISTA, E TEM-SE, COMUMENTE, VÁRIOS FOCOS DE AÇÃO SIMULTÂNEOS: O PRINCIPAL, INDICADO PELO ATOR QUE TOMA A PALAVRA EM UM SOLO, E OS PARALELOS, QUE APRESENTAM OS RESTANTES ATORES EXECUTANDO AÇÕES NÃO EXATAMENTE REALISTAS, MAS MUITO MAIS PRÓXIMAS DE UMA COREOGRAFIA DE GESTOS E INTENSIDADES, GERALMENTE PENDENDO PARA OS TEMAS DA DRAMATURGIA DE SARAH KANE, ANTES REFERIDOS.
HÁ UM DESTACÁVEL INVESTIMENTO NA PRODUÇÃO DO ESPETÁCULO, QUE SE REFLETE NA PLASTICIDADE DO ESPAÇO CÊNICO. PINTURAS E COLAGENS SE ATRITAM, ENQUANTO ELEMENTOS BIDIMENSIONAIS, COM OUTROS ELEMENTOS TRIDIMENSIONAIS DA CENOGRAFIA, TORNANDO RICA A EXPERIÊNCIA VISUAL. HÁ UMA RETOMADA DA IDEIA DE MÁSCARA (SOCIAL)  DURANTE A ENCENAÇÃO, CONCRETIZADA EM VARIADAS MANEIRAS DE ESCONDER/TRANSFORMAR A FACE, A MAIS INTRIGANTE AQUELA QUE ABRE A PEÇA, EM QUE SACOLAS DE COMPRAS ESTAMPADAS COM AS FEIÇÕES DOS INTÉRPRETES COBREM OS ROSTOS DOS PRÓPRIOS ATORES QUE AS PORTAM. FIQUEI PENSANDO QUE A METÁFORA PODERIA SER AINDA MAIS POTENTE SE OS ATORES TROCASSEM AS SACOLAS, E CADA UM "VESTISSE" O ROSTO DO OUTRO, COMO AQUELES QUE FREQUENTAM OS CONSULTÓRIOS DOS CIRURGIÕES PLÁSTICOS, EM BUSCA DE ROSTOS NOVOS/NOVOS ROSTOS. JÁ A TRILHA SONORA, COMPOSTA BASICAMENTE DE "CLÁSSICOS" DO ROCK, DA DANCE MUSIC E DO INDIE, DÁ ESPAÇO PARA O OPERÍSTICO, AO FINAL DO ESPETÁCULO.
HÁ UMA BELA ENTREGA EMOCIONAL DO ELENCO, QUE DEFENDE INTENSAMENTE SUAS PERSONAS FICCIONAIS. MAS NÃO É SÓ ISSO: HÁ ESPAÇO PARA O SARCASMO E A PAULADA VERBAL (ESSAS ÚLTIMAS, CARACTERÍSTICAS DOS ESPETÁCULOS DO TEATROFÍDICO). O FORTE DO TRABALHO DOS ATORES É O TRABALHO COM A DRAMATURGIA-PALAVRA, APARECENDO, EVENTUALMENTE, ALGUMA DIFICULDADE PARA LIDAR COM A DRAMATURGIA DO CORPO, REPRESENTADA PELO EXIGENTE TRABALHO FÍSICO QUE É DEMANDADO PELA ENCENAÇÃO.
CONSTRUIR UMA DRAMATURGIA COERENTE, A PARTIR DE FRAGMENTOS (AINDA QUE DE UM MESMO AUTOR), É SEMPRE UM POUCO ARRISCADO, JÁ QUE PASSA-SE POR CIMA DAS INTENÇÕES ORIGINAIS DO AUTOR, QUE, AO DAR POR ENCERRADA UMA OBRA, CONSIDEROU-A TENDO A MEDIDA NECESSÁRIA PARA QUE PUDESSE COLOCAR O FAMOSO "PONTO FINAL". AINDA QUE OS TEMAS DE SARAH KANE REINCIDAM, DE OBRA PARA OBRA, AS FÁBULAS SÃO DIFERENTES, O QUE PODE OCASIONAR ALGUNS DESNÍVEIS NA NARRATIVA. POR OUTRO LADO, COMO SE COSTUMA DIZER, O TEXTO DRAMÁTICO É APENAS UM DOS ELEMENTOS QUE CONSTITUEM O ESPETÁCULO TEATRAL. FICAMOS, ASSIM, "NIVELADOS" PELOS RESTANTES ELEMENTOS, E QUE TAMBÉM (E PRINCIPALMENTE) CONTAM "UMA HISTÓRIA". EM UM TRABALHO COMO CADARÇO DE SAPATO, QUE LEVA ATÉ MESMO EM SEU TÍTULO A HOMENAGEM À INGLESA SUICIDA, AS REFERÊNCIAS VÃO DESDE UM PAINEL COM A FACE DA AUTORA, ATÉ UMA NARRAÇÃO EM OFF SOBRE AS CIRCUNSTÂNCIAS DA VIDA E DA MORTE DELA, QUE CONSIDERO "SOBRAR" EM RELAÇÃO AO RESTANTE DA PEÇA. NÃO É PRECISO SABER DADOS BIOGRÁFICOS, AINDA MAIS DE FORMA TÃO EXPLÍCITA, PARA ENTENDERMOS O TURBILHÃO DE ANGÚSTIAS QUE NOS É MOSTRADO.
É UM ESPETÁCULO QUE PROCURA INCORPORAR ALGUMAS PRÁTICAS CÊNICAS QUE FORAM COLIGIDAS E BATIZADAS POR HANS-THIES LEHMANN COMO PÓS-DRAMÁTICAS: O USO DO MICROFONE COMO INTERMEDIÁRIO DISTANCIADOR ENTRE A VOZ DO ATOR E O ESPECTADOR; A TRILHA SONORA QUE COMENTA/ILUSTRA/SOBREPÕE-SE ÀS VOZES DOS ATORES; O ESPAÇO CÊNICO FICCIONAL INDETERMINADO; A MULTIPLICIDADE DE OBJETOS MANIPULADOS PELOS ATORES, QUE VÃO SUBLINHANDO E/OU CONTRAPONDO-SE À NARRATIVA; A CONSTRUÇÃO DE AÇÕES QUE FLERTAM COM A DANÇA EM SEU MOVIMENTO EM DIREÇÃO À ABSTRAÇÃO, E OUTROS EXEMPLOS POSSÍVEIS. E, É CLARO, NÃO PODE-SE FALAR EM PÓS-DRAMÁTICO SEM TER EM PERSPECTIVA O DRAMÁTICO, E NESSE SENTIDO A DRAMATURGIA DE SARAH KANE É EXEMPLAR EM PROPORCIONAR AO ENCENADOR A INDETERMINABILIDADE NECESSÁRIA PARA O ENIGMA A SER DESVENDADO QUE CONSTITUI, MUITAS VEZES, A PRINCIPAL CARACTERÍSTICA DO TEATRO CONTEMPORÂNEO.
EDUARDO KRAEMER E SEUS ATORES RENATO DEL CAMPÃO, JAIRO KLEIN, ADRIANA LAMPERT, LUCIMAURA RODRIGUES, GUSTAVO RAZZERA E REJANE MENEGUETTI SE PROPUSERAM, CLARAMENTE, A UMA PESQUISA DE LINGUAGEM QUE ULTRAPASSA, EM RESULTADOS POSITIVOS, OUTRAS INCURSÕES POR DRAMATURGIAS QUE FAZEM PARTE DA TRAJETÓRIA DO TEATROFÍDICO. A VIRULÊNCIA DA AUTORA PARECE CASAR BEM COM O DESACOMODAMENTO TEATRAL DO GRUPO.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A OBRA DE ARTE NA ERA DA INCOMUNICABILIDADE TÉTRICA

O título deste post faz pastiche de um dos textos mais importantes do século XX, escrito pelo alemão Walter Benjamin: A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. O texto de Benjamin tornou-se uma das grandes referências para pensar a obra de arte não mais como exemplar único, mas como produto copiável e, por este motivo, banalizável - sem dúvida, a marca de nossa era pós-industrial. A famosa "aura" que La Gioconda ou A última ceia têm, por seu caráter de peça única, são problematizados com a disseminação da gravura (antes, a prensa já antecipara essa possibilidade de produzir quantos volumes se quisesse de um mesmo livro), do cinema e, ainda mais em nossos dias, da facilidade de digitalização e transmissão dessa imagem ou conteúdo de forma infinita. 
O nada menos que genial cineasta austríaco Michael Haneke começou a dirigir filmes para a televisão austríaca na década de 1970, mas estreou no cinema de fato apenas em 1989. Desde então, produziu pouco mais de dez filmes para a telona, sempre se superando e fascinando com sua tão particular maneira de lidar com o tempo e com o espaço ficcionais. Pois bem, Michael Haneke produziu uma Trilogia da Incomunicabilidade, composta por seus três primeiros longas para cinema: O sétimo continente (1989), O vídeo de Benny (1992) e 71 fragmentos de uma cronologia do acaso (1994).
 
O sétimo continente faz uso de um número reduzidíssimo de personagens - praticamente apenas o pai, a mãe e a filha pequena - para contar uma história inspirada em um fato real, lido por Haneke em um jornal nos anos 1980. O cineasta, também autor do roteiro, imagina o que teria levado uma família a cometer suicídio em sua casa, não sem antes destruir a golpes de machado e pé-de-cabra e cortes de tesoura, toda a mobília e quaisquer outros objetos que possuíam, restando apenas uma TV. Essa misteriosa motivação suicida é apresentada de forma brilhante no filme, através da crescente mecanização das vidas dessas personagens, e do fracasso na manutenção da rotina cotidiana, que vai se imiscuindo aos poucos. Por exemplo: os dez primeiros minutos do filme mostram a rotina do acordar de manhã dessa família, porém sem mostrar os rostos das personagens. Os enquadramentos estáticos privilegiam a ação sem destacar os agentes, o que provoca inesperadas associações no espectador. A destruição selvagem de todos os bens de consumo da família é perturbadora, e o filme nos deixa boquiabertos com a violência latente que cada um de nós tem dentro de si, na luta por agir civilizadamente.
 
O vídeo de Benny tem como protagonista o Benny do título, de cerca da 15 anos de idade, um jovem fascinado pelas possibilidades do registro de imagens através de uma câmera. Quando comete um assassinato, que é devidamente registrado por sua câmera, e cuja motivação havia sido apenas o "saber como é" matar alguém, seus pais se veem envolvidos e dispostos a qualquer coisa para encobrir o crime do filho adolescente. Para isso, retrocedem em sua civilidade, passando por cima da culpa e de um comportamento razoável para quem vive em comunidade.
 
71 fragmentos de uma cronologia do acaso tem Juliette Binoche como uma das atrizes, e se constitui em um daqueles filmes-mosaico, que outros cineastas tão bem construíram, como Robert Altman (O jogador, Short cuts), e Alejandro Gonzalez Iñárritu (Amores brutos, 21 gramas). Acompanhando a vida de algumas personagens que se cruzam em um evento comum que os une por um breve momento (uma explosão de violência que não vou detalhar para não tirar a surpresa de quem ainda não viu o filme), o filme é, a exemplo dos outros dois anteriormente citados, uma angustiante narrativa que traz como principal mote as dificuldades do ser humano contemporâneo de viver em uma sociedade constantemente esvaziada de sentido pelo acúmulo de consumo(s). A tal da incomunicabilidade é uma palavra prêt-à-porter, ou seja, é usada indiscrimidamente, na falta de palavras mais precisas, para explicar essa febre que queima o Homem contemporâneo. A trilogia de Haneke é exemplar para mostrar que o cinema pode socar fundo nossos estômagos, coisa que o cineasta faria cada vez melhor com os seus filmes seguintes, como Caché, A professora de piano, Código desconhecido, Funny games- Violência gratuita, A fita branca e Amor. 
 

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Fassbinder- O pior tirano é o amor

Rainer Werner Fassbinder foi homem de teatro e de cinema - muito mais de cinema, dado o legado fílmico remanescente de sua curta vida (1945-1982), composto de algumas dezenas de produções. O novo espetáculo do Coletivo Confúcios e Confusos elegeu essa contraditória e arrebatada figura como tema de seu novo espetáculo, Fassbinder- O pior tirano é o amor, que já indica, desde o título, um flerte com o melodrama e com a literatura pulp. Tal inclinação é coerente tanto com a vida de Fassbinder, que, como se diz, "daria um livro", tal o número de situações com potencial dramático que viveu; e, além disso, coerente com a dramaturgia de Diones Camargo, que se encarregou do texto do espetáculo. Diones vem de algumas experiências em que esteve em primeiro plano o lado melô da vida, seja em Os plagiários (que trabalhava sobre a vida de Nelson Rodrigues), seja em Hotel Fuck (que trabalhava especificamente sobre a literatura pulp e o cinema seu herdeiro). Nesses dois últimos citados, percebia-se o gosto de Diones pela frase feita, pela tirada de efeito, pela construção algo artificial dos diálogos, criados para causar uma nostalgia de algo já lido/ouvido em alguma sessão de Corujão na TV ou brochura de papel amarelado. Aqui, em Fassbinder, trabalhando sob as orientações do diretor Clóvis Massa, que lhe encomendou o texto da peça, há uma amenização no tom satírico, mas é inegável que o estilo do dramaturgo está lá. A multiplicidade de personagens e a superposição de planos narrativos permanece como estratégia da construção textual, com a vantagem, desta vez, de uma maior clareza na passagem de planos. Poderia ser dito que há menos experimentação e mais objetivação na tarefa.
A encenação procura incorporar elementos da linguagem cinematográfica, sem que se restrinja a simples projeções de imagens, embora elas aconteçam em alguns momentos. Há, por exemplo, o recurso ao enquadramento das figuras em substitutos de quadros fílmicos: a cenografia de Rodrigo Shalako, composta de painéis móveis que simulam paredes e aberturas de porta e janelas, recorta os corpos dos atores em planos americanos, ou planos detalhe. Há, também, uma espécie de fusão de imagens, efeito alcançado quando sobrepõem-se, em um mesmo espaço da cena, dois diferentes planos narrativos, como por exemplo, na cena em que as personagens do filme As lágrimas amargas de Petra von Kant rompem sua relação simultaneamente ao rompimento "real" de Fassbinder com um de seus amantes, com um resultado bastante teatral e bem executado.
Aparentemente há uma intenção de emular procedimentos brechtianos, a partir do uso das canções que aparecem de quando em quando no decorrer da encenação. Essa intenção é até mesmo verbalizada por uma das personagens, em dado momento da peça, bastante en passant, quando diz algo como "interrompemos a peça e cantamos, de um jeito brechtiano". Não pode ser dito o mesmo sobre as famosas projeções de títulos que Brecht apresentava aos seus espectadores, que tinham uma função de antecipar os acontecimentos que se seguiriam. Na peça dirigida por Clóvis, os títulos dos atos (três) e alguns textos colocados entre aspas (que, suponho, sejam de Fassbinder) têm uma função mais poética que desdramatizante. Também não é possível atribuir uma função distanciadora para o repartimento da personagem R. W. Fassbinder entre três diferentes atores. Essa escolha deve-se muito mais a uma lógica de passagem do tempo (realista) ou a uma questão de economia de produção do que uma tentativa de estranhamento. Estranho, no sentido brechtiano, seria uma das atrizes atuar como Fassbinder.
O elenco é versátil e bem preparado para transitar entre as diferentes figuras. Luciano Pieper, Frederico Vittola e Marcos Contreras vivem três fases distintas de Fassbinder com uma curiosa estratégia: à medida que a personagem envelhece, ela cresce em estatura e ganha pelos no rosto. Assim, Luciano, o mais baixo dos três atores, aparece de rosto barbeado, Frederico, o intermediário, com um bigode, e Marcos, o mais alto, com barba inteira. Não saberia dizer se essa metáfora foi intencionalmente construída, em direção ao crescente reconhecimento de Fassbinder como artista superior. Mesmo assim, e Clóvis Massa como estudioso da teoria da recepção bem o sabe, é incontrolável o que o espectador lê em um espetáculo que lhe é apresentado. Portanto...
Rodrigo Shalako, Viviana Schames, Renata de Lélis e Martina Fröhlich completam o elenco em atuações convincentes e bem dirigidas. Martina, especialmente, em função de seu preparo para o canto, se destaca positivamente, encontrando, em minha opinião, o melhor exemplo do que eu esperaria de uma atuação "germânica" e quase brechtiana. Deve ainda ser mencionado o excelente trabalho de Antônio Rabadan na criação das dezenas de peças do figurino, auxiliado por Kethyene Sperhacke.
Registro ainda, em 2014, um fato que me chama a atenção, e que é bem vindo: o número de espetáculos, em Porto Alegre, que trazem como centro narrativo das encenações os relacionamentos homossexuais. Tivemos Anjo da guarda, de Paulo Guerra, depois, Os homens do triângulo rosa, da Cia. Teatro ao Quadrado, e agora, Fassbinder- O pior tirano é o amor. Os três espetáculos fogem do viés cômico que seguidamente se vê nos palcos - que é bem vindo e tem o seu espaço, ressalte-se. Mas assistir a espetáculos que tragam personagens homossexuais construídos densamente e com respeito é um mérito da nossa produção local.

domingo, 23 de novembro de 2014

Um dia assassinaram minha memória


Adriana Cavarero, em seu excelente livro Vozes plurais- Filosofia da expressão vocal, reconstitui um acontecimento importantíssimo para a História não apenas da arte, mas para a História da civilização, e que ela chama de desvocalização do logos. Trocando em miúdos, e sintetizando barbaramente a ideia da autora, tão bem desenvolvida em sua escrita, essa desvocalização do logos foi a irremediável e irreversível troca (ou abandono, melhor dizendo) da expressão vocal como unicidade, ou seja, a ideia de que cada ser nascido sob o sol tem uma voz única, que a exemplo de uma impressão digital, é inimitável e irrepetível. Cada voz é um universo. Pois bem, ao diminuir a importância da voz como expressão e transmissão de conhecimento - valorizando, em substituição, a palavra escrita -, a Humanidade perdeu algo precioso, e que apenas o som produzido pela carne, pelas entranhas do Homem, é capaz de dar. A palavra escrita, seja sobre a plataforma que for, seja sob o alfabeto que for, é sempre uma transcriação; é signo, não significado. A palavra escrita tem sentido, sim, mas não o significado que o som vocal possibilitaria. 
Toda essa divagação me ocorre após ter assistido Um dia assassinaram minha memória, espetáculo teatral dirigido por Decio Antunes e Carlota Albuquerque. Não que a voz tenha uma importância tão fundamental no espetáculo, apesar de que as palavras pronunciadas pelas "intérpretes-colaboradoras" sejam afiadas e carregadas de sentidos que se conjugam perfeitamente com a ambientação cênica, uma casa meio vazia, meio abandonada, criada ficcionalmente no espaço do Museu Júlio de Castilhos. O que me fez elucubrar foi, em um primeiro momento, as sonoridades que invadem os ouvidos dos espectadores, criadas por Ricardo Pavão. A importância do som está diretamente ligada à ausência dele, e a alternância entre ambos enriquece a experiência. Em Um dia assassinaram minha memória, os espectadores são colocados em contato com o que de mais invasivo pode haver: o som que entra pelos nossos ouvidos, ao qual não podemos resistir, não podemos negar, não podemos ignorar. O videocentrismo, que substituiu a escuta no mundo moderno como forma de absorção do mundo, pode ser boicotado: basta virar o rosto a uma visão que nos enoja, ou fechar os olhos para o que nos assusta. O som nos invade sem clemência, nos agride. A imagem permanece no espaço, aloja-se na retina e lá permanece, a não ser que cortemos o contato fechando as pálpebras. Um cão atropelado à beira da estrada está lá, e lá ficará, até que alguém o recolha, ou que o tempo aja sobre ele; semanas, meses se passarão, enquanto a transformação lenta se efetua. O som do cão atropelado, o ganido surpreso e dolorido é único e fugaz: dura apenas um segundo, existe apenas no tempo. A imagem que dura no espaço, e o som que dura no tempo, são os elementos que formam a memória. A memória que impregna um museu, por exemplo (memória no espaço, diga-se de passagem, já que nesse tipo de museu expõem-se objetos, imóveis, isolados de seus contextos originais, mortos, de alguma forma). O som não é um elemento corriqueiro em um museu. O som do silêncio, sim.
Imagens e sons compõem o belo espetáculo da Jogo de Cena Companhia Teatral. Tudo é belo: figurinos, iluminação, ambientação cenográfica, atrizes. Tudo é carregado de obsessões. Fantasmas da memória, mulheres de várias idades têm fragmentos de suas vidas apresentadas, sem que, no entanto, se construa uma lógica aristotélica na narrativa. Como é praxe no teatro pós-dramático, o sentido se dá pelo acúmulo de signos, de sensações, atmosferas, imagens, sons. Identifica-se, por vezes, algumas figuras da dramaturgia universal, como a Mãe Coragem de Brecht, ou a Clitemnestra do mito grego, porém descontextualizadas e picotadas. De resto, é como se não estivéssemos ali, fôssemos testemunhas desses fantasmas, ainda que, em algumas ocasiões, esses fantasmas busquem interação conosco, os espectadores.
Um resultado rigoroso, que reforça a linha estilística de Decio Antunes como encenador, em que algumas de suas obsessões retornam mais uma vez à cena: as mulheres, a memória, o trágico, a dança-teatro. Desta vez, o resultado é bastante superior a Corte, de 2009, que constituiu a primeira parte da trilogia da qual Um dia assassinaram minha memória é o segundo momento. Lembrei-me de A casa, um belíssimo espetáculo dirigido por Decio, que guarda algumas semelhanças com este seu mais recente trabalho.
As mulheres que compõem esse mostruário fantasmático são intensas, inteiras, interiorizadas: Naiara Harry, Lurdes Eloy, Angela Spiazzi, Kaya Rodrigues e Renata Stein vagam pelos corredores, entram e saem de cômodos, mostram-se e escondem-se em recônditos que alternam luz e escuridão. Atuações delicadas, quase sempre contidas, invariavelmente repletas de verdade. Não foi possível, ao final da sessão que assisti, cumprimentar a equipe, vários dos quais com quem já trabalhei (Naiara, Lurdes, Angela, Decio e Carlota), pois uma nova sessão começaria em poucos minutos. Deixo, no entanto, meu abraço a todos pelo espetáculo tão especial. Parabéns!

sábado, 22 de novembro de 2014

OS HOMENS DO TRIÂNGULO ROSA: crítica de Fabio Prikladnicki

 
Pedro Delgado (como Tio Freddie) e Marcelo Ádams (como Max) integram o elenco da produção          
Foto: Luciane Pires Ferreira / Divulgação
 

Opinião: Peça "Os Homens do Triângulo Rosa" resgata potencial transgressor do amor

Espetáculo da Cia. Teatro ao Quadrado aborda perseguição nazista aos homossexuais

Por Fabio Prikladnicki (Jornal Zero Hora/Clic RBS)
 
Conhecida no cenário gaúcho por espetáculos com textos modernos que se valem de um humor sarcástico e também por suas montagens de Molière, a Cia. Teatro ao Quadrado dá um passo adiante com a peça Os Homens do Triângulo Rosa, que estreou no Theatro São Pedro e depois cumpriu temporada no Teatro Renascença, em Porto Alegre. Desta vez, trata-se de um espetáculo seriíssimo, abordando a perseguição aos homossexuais na Alemanha nazista.
O tema é pertinente por dois motivos. Um deles é o pouco conhecimento que se tem, ainda hoje, sobre este episódio histórico. O segundo é que os homossexuais são, atualmente, alvo de violência sistemática nas ruas do Brasil, como salientou a diretora Margarida Peixoto antes da sessão a que assisti no Teatro Renascença. Assim, esse teatro político no melhor sentido – belo e transformador – faz bem a Porto Alegre.
Max (Marcelo Ádams) mora com o bailarino Rudy (Gustavo Susin), mas ambos têm de fugir de Berlim quando o cerco nazista aperta. Em meio a suas desventuras, Max vai parar no campo de Dachau, onde encontra um novo amor, Horst (Frederico Vasques). Antes de chegar ao campo, Max convence os soldados de que é judeu – a um custo doloroso – e ganha um uniforme com a estrela de Davi amarela. Assim, consegue ser mais bem tratado do que Horst e os outros homossexuais do campo, que levam o triângulo rosa.
Cabe destacar as atuações de Marcelo Ádams e Gustavo Susin. O primeiro acerta o tom especialmente nos momentos de maior intensidade, em um desempenho mais nuançado do que demonstrou recentemente em A Vertigem dos Animais Antes do Abate, também exibida neste ano. E cresce na segunda parte. Susin revela-se um ator particularmente versátil, capaz de incorporar, a cada novo espetáculo, papéis bastante distintos entre si. Seu Rudy é delicado e adorável. Frederico Vasques fica um pouco atrás como Horst, protagonista ao lado de Max e personagem exigente em força de expressão. Em tudo, aparece o trabalho seguro da direção de Margarida.
É impossível não se emocionar com o trecho em que Max e Horst fazem amor sem se tocar em um curtíssimo intervalo no trabalho forçado no campo. Valendo-se apenas da fala, eles redescobrem o potencial transgressor do amor erótico. Interpretada de forma extremamente sensível e respeitosa por Ádams e Vasques, a cena é uma das mais memoráveis já apresentadas nos palcos porto-alegrenses nos últimos tempos.
Uma nota deve ser feita sobre o texto da peça. O programa do espetáculo entregue aos espectadores informa que a dramaturgia foi "adaptada" de três fontes: Bent (1979), peça de Martin Sherman (levada ao cinema, com o mesmo título, em 1997), e os livros Triângulo Rosa – Um Homossexual no Campo de Concentração Nazista, de Rudolf Brazda e Jean-Luc Schwab; e Eu, Pierre Seel, Deportado Homossexual, de Pierre Seel.
Trata-se, no entanto, de uma montagem de Bent, do início ao fim, com pequenos acréscimos. Há uma intervenção maior no papel de Greta, a travesti amiga de Max, que canta Streets of Berlin no início da peça original e do filme. Em Os Homens do Triângulo Rosa, Greta (representada com graça e vigor por Gisela Habeyche) pontua todo o espetáculo com canções de Kurt Weill em letras recriadas por Marcelo Ádams e acompanhamento da ótima pianista Elda Pires, que também executa passagens instrumentais. O recurso de estender a presença de Greta até o fim torna-se complicado porque, em pouco tempo, ela perde sua função dramatúrgica. Sua figura misteriosa e extravagante combina mais com a festa da vida em Berlim antes da perseguição nazista, na primeira parte, e menos com a tragédia crescente do meio para o final.
A Cia. Teatro ao Quadrado se reinventa com um tipo de trabalho cada vez mais necessário na cena gaúcha: construído, acima de tudo, a partir de uma ideia clara. Fica demonstrado que o grupo tinha um projeto sólido em mente, que soube traduzir em uma cena estimulante e – artigo raro no mercado – socialmente relevante.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Sobre uma montagem necessária, útil e imperdível: Os homens do triângulo rosa

O texto que se segue foi escrito por Igor Simões, que é ator, professor de História, Teoria e Crítica da Arte na Uergs (Universidade Estadual do Rio Grande do Sul), e Doutorando em História, Teoria e Crítica da Arte na UFRGS. Após assistir Os homens do triângulo rosa, ele nos brindou com seu lindo texto e com uma aguçada mirada sobre nosso espetáculo:
 
"Sobre uma montagem necessária, útil e imperdível: 
Os homens do triângulo rosa
 
Os tempos lá fora andam sombrios. Pessoas defendem aquilo que afeta a existência do outro. Tempos assim evocam sombras. Tempos assim evocam medo. Mas há um lugar. Um lugar desvalorizado, por vezes. Criticado, reconstruído, morto, reaparecido. Estou falando da história. A história como um lugar que montamos em nossas vidas a partir de nossas crenças. O historiador, afinal, é um de nós. O teatro sempre foi o espaço profano da história. Apreende-a sem ceder aos seus caprichos. Há a história, há a estória - sua natureza mais própria - e há o teatro. Em alguns momentos, o teatro pode servir como dispositivo. Dispositivo da história para olhar não para aquele lugar distante e empoeirado mas para os dias que nos envolvem, e algumas vezes, engolfam. O espetáculo Os homens do triângulo rosa, da Cia. Teatro ao Quadrado é um desses momentos em que cotidiano, história e arte se encontram e promovem mergulhos no íntimo e no coletivo. No personagem do ator Marcelo Ádams moram concomitantemente o passado da perseguição nazista e o contemporâneo de um Brasil (e de um mundo) que faz vistas grossas ao amor entre pessoas do mesmo sexo e que inacreditavelmente levanta, a cada mudança de calendário, mais bandeiras que apontam para a discriminação, para o gueto, para o ouvido surdo ao mundo que vem daquilo que me faz diferente do outro e que, assim, na diferença, me faz humano. Mas não só. Os dias recentes têm tornado invisíveis a potência do outro em ser aquilo que ele é: outro. As urnas reveladas nos últimos pleitos revelaram isso ao se verificar a enorme quantidade de votos de homens e mulheres que defendem a supressão do outro. O outro em tudo que ele tem de aventura e desdém, fascínio e distanciamento. O trabalho da Cia. Teatro ao Quadrado é uma golfada de ar, amor, generosidade e cuidado para com aquilo que nos faz mais gente. Para o amor e seus desvãos, para intolerância e sua incapacidade de conter a represa do que é vivo. A iluminação cria atmosfera que abraça toda ação. A cantora do cabaré pré-perseguição reunida ao piano desafiam o correto sem traí-lo e optam por rasgar os conflitos e lembrar- nos de que tudo é representação. Este tudo a que me refiro inclui a guerra e as disputas em toda sua selvageria e humanidade. O conjunto de atores é de um equilíbrio raro. Cada um deles está em cena inteiro, defendendo uma história difícil de ser contada pelas dificuldades dramatúrgicas que impõe. Manter atento um público que durante muitos minutos se vê diante de dois volumes feitos de pedra e cinza simetricamente colocados criando uma limitação intencional à representação enquanto dois atores se movem entre eles exige corpo, presença, voz em ato de vida. Nada disso falta, por vezes, sobra. A direção de Margarida Peixoto acerta ao mergulhar o público no cascalho cotidiano do campo de concentração e deixar que ele reviva cada segundo do errar cotidianamente sem saída mas em busca de uma liberdade possível. Enquanto isso as sutilezas de cada um dos personagens são operadas com cuidado, delicadeza e atenção e se mostram em inteireza de humanidade e compartilhamento de experiências entre o estar em um determinado contexto histórico, temporal e ainda, aquilo que se pode fazer para que ele não determine sozinho aquilo do que somos feitos. A prisão nazista do espetáculo é uma prisão para a liberdade. Quanto mais encarceradas estão as figuras que se despem diante do público mais se tornam evidentes suas estratégias para serem livres em seu sexo, em seus amores, em seus temores e em sua insistência no resistir. Há espaços de luminosidade plena na encenação. Logo na primeira parte, os personagens gays, de amor livre e distante dos padrões do casamento gay pré-Aids se encontram no amor que ecoa das vozes de Gustavo Susin e Marcelo Ádams ao entoar Somewhere over the rainbow. Hoje a canção pode soar clichê da representação do gay americanizado. Na encenação ela é um último facho de luz em um amor que se sabe ao fim e que encontra ali, em meio a uma selva (ou bosque?) de intolerâncias, o último lugar possível para ser inteiro, genuíno, humano.
Em uma agenda de espetáculos que tende à comédia que atrai público, tocar em temas como este é importante. Mais: é necessário. A cenografia acerta ao preocupar-se mais com atmosfera do que com a funcionalidade. As imagens que se constroem diante dos olhos do público são potentes e completamente dependentes da exatidão dos atores que, capitaneados por Marcelo Ádams, que aqui interpreta o protagonista, se dividem em momentos de inteireza e fé cênica.
Enfim, por este e por muitos outros motivos que ecoam após assistir a montagem de Os  homens do triângulo rosa e que só se tornarão palavras após um tempo necessário, que toda boa arte exige, é indispensável que o público prestigie, assista e perceba o quanto de humano se perdeu ao se escolher o caminho da surdez, da cegueira e da indiferença a tudo aquilo que ao fim e ao cabo, como diz o protagonista 'é só amor (...) por que está errado?'."

terça-feira, 28 de outubro de 2014

OS HOMENS DO TRIÂNGULO ROSA: seleta de impressões




Alguns dos comentários que estamos recebendo sobre OS HOMENS DO TRIÂNGULO ROSA. Que alegria sentimos quando conseguimos tocar os espectadores com nossa arte! Todas as fotos são de Luciane Pires Ferreira.

Por Valência Losada:
"É muito tocante quando uma encenação atinge com supremacia uma das funções do fazer teatral, o arrebatamento. Assisti agora pouco Os homens do triângulo rosa, montagem do Teatro Ao Quadrado. Saio com a certeza que o teatro precisa, como há muito não carecia, de espetáculos que investiguem, questionem e nos façam refletir acerca da condição humana.
É muito, muito importante que compreendamos o pensamento de Brecht, Hannah Arendt, Foucault, Adorno, Artaud, Heiner Muller e outros tantos que nos fizeram pensar a arte, não como entretenimento, mas na sua força transformadora.
Fico imensamente feliz em saber que há uma montagem deste nível estético, social, histórico sendo feita aqui em Porto Alegre. Fico feliz de alguma forma fazer parte disso.
Obrigada e parabéns, Teatro ao Quadrado!
Somos todos um só."

Por Ana Cláudia Munari:
"Superou qualquer expectativa, em todos os sentidos: texto, elenco, direção, cenografia, não há o que contrapor, é um conjunto de escolhas à perfeição.
Eu acho que esse espetáculo é daquele tipo que faz a gente sair diferente do teatro. Seria maravilhoso se ele percorresse o país inteiro, o mundo inteiro.
NÃO DEIXEM DE ASSISTIR, ELE VOLTA AINDA EM OUTUBRO NO TEATRO RENASCENÇA."

Por Zoravia Bettiol:
"Oi pessoal,
Os Homens do Triângulo Rosa é um espetáculo teatral que deve ser visto por todos. O trabalho do grupo Teatro ao Quadrado está ótimo. A direção segura da Margarida Peixoto que conduz um excelente elenco nos faz refletir sobre questões muito importantes como a liberdade do ser humano, a sua sexualidade, o amor e quando elas são abafadas e aniquiladas pela violência e crueldade. O espetáculo pode ser visto no Teatro Renascença até o dia 16/11. Não percam."

Por Bob Bahlis:
"Ontem fui ver  Os homens do triângulo rosa", em cartaz no Teatro Renascença até o dia 16 de Novembro.  A peça é muito boa, daquelas que vai te pegando de cantinho e faz o tempo passar rápido demais...
É uma grande história de amor, no meio de um campo de concentração.
Mas talvez antes do amor, a história nos mostre a capacidade que nós humanos temos de nos adaptar a qualquer situação, pelo instinto de nos mantermos vivos e... depois...amar.... ou seria ao contrário?
O elenco está arrasando e a direção da Margarida Peixoto é impecável.
Hoje acordei com uma sensação terrível, em pensar na família da minha avó, sobrevivente dos campos de concentração, vivenciaram tudo isso, e que milhares de histórias como essa, da peça, aconteceram.
E fiquei com tantas outras questões que estão circulando na minha mente....
Parabéns ao Teatro Ao Quadrado, pelos 12 anos de trajetória, pela linda história.
Parabéns ao elenco e equipe técnica.
Seus lindos!"


Por Fernanda Petit:
"Ontem assisti Os homens do triângulo rosa, me lembrei de um tempo bonito em que na sala da Terreira da Tribo decidimos assistir em galera o filme BENT. Choramos todos juntos e fomos dormir pensando em tudo aquilo.Anos depois achei o texto e hoje assisto a adaptação deste. Me fez voltar no tempo.
O texto é muito bom e há momentos de extrema beleza. Gosto tanto, mas tanto das músicas (daquelas coisas que eu gostaria de dizer).
O mais bonito de assistir a peça foi ver tantos casais gays na plateia com um sensação de liberdade. Havia casais se fazendo carinho e dando beijo e desculpa, mas raramente eu vejo isso na rua e nos espaços, mesmo quase tendo só amigos gays. Me causou uma surpresa boa.
A peça tem momentos muitos bonitos e extremamente tensa em certos momentos, com ótimo jogo entre os atores. O elenco está afiado e com construção de personagens interessantes e cativantes. O trabalho corporal é primoroso. Me peguei quase chorando em dois momentos, mas segurei a peteca. Sou fã de muita gente ali!
Parabéns a toda equipe, direção e ao grupo por trazer à tona este tema e tocar a gente de alguma forma.
Como disse ontem na janta os silêncios da peça e este estado "parado" mas presente é simplesmente lindo. Como o silêncio diz tanta coisa. Como é bonito ver duas pessoas paradas diante da gente, mas tanta coisa acontecendo.
Vão!"


Por Luciene Barbiero Machado:
"Theatro São Pedro. Os homens do triângulo rosa. Marcelo Ádams protagoniza ao lado de feras como Gisela Habeyche. Espetáculo corajoso e necessário. Direção sublime. Eu e todos que aplaudimos em pé recomendamos. Temporada no Renascença em breve. Fotos do espetáculo de Luciane Pereira."

Por Ana Castro:
"Quanta emoção...primeiro por ter reencontrado meu professor de teatro e amigo Pedro Delgado e o colega Marcelo Adams (excelente...mto orgulhosa). Um texto denso, envolvente, visceral, apaixonante e tão atual, infelizmente. Qualquer forma de amor vale a pena... Por que tanta falta de respeito? Não deixem de conferir "Os homens do triângulo rosa" da Cia Teatro Ao Quadrado. Vocês vão sair do espetáculo mais reflexivos, apaixonados e combativos a qualquer tipo de preconceito, com certeza."

Por San Lopez:
"Um verdadeiro espetáculo, sensível, poético e com interpretações arrebatadoras. Texto inteligente com direção , figurinos e cenografia perfeitas. A emoção e a dramaticidade extrapolam a quarta parede nos deixando ( público) reféns e cúmplices de uma bela história de amor e superação do ser humano. Imperdível!!!"

Por Carlos Cava:
"Prezado Marcelo
Sou um assíduo frequentador de teatro e, principalmente, sempre apoiei e defendi o teatro feito no Rio Grande do Sul que, apesar de todos os esforços da classe artística, não encontra patrocínio e não é referendado pelo grande público.
Peças teatrais vindas de Rio ou São Paulo, muitas vezes com atores gaúchos em seu elenco, costumam ser aplaudidas, ainda mais com artistas globais e, nem sempre, são boas obras.
Assisti ontem (domingo) ao belo... trabalho da Cia. Teatro ao Quadrado e, antes da apresentação, ouvi as belas palavras de Margarida Peixoto que muito me tocou. Seu trabalho como ator não me surpreende, pois tive o prazer de assisti-lo várias vezes e sempre fiquei comovido com sua interpretação. O elenco muito bem afinado e o brilhante acompanhamento musical de Elda Pires criaram uma apresentação sem reparos, maravilhosa.
Congratulo-me com todos e desejo uma ótima temporada e, dependendo de minha "publicidade", farei o que tiver ao meu alcance. Um grande abraço."


Por Márcia Ilha Marques:

"Elenco show, sem exceção! E afinados pela diretora (de quem reconheço as marcas)! Figurinos e maquiagem belíssimos! Cenário "eletrizante"! Trilha sonora tão bonita e tão capaz de levar a reflexão! A sirene impactante! O "carregar pedras" enlouquecedor! O "fazer amor sem entrar-se" (ou talvez entrando mais ainda)!
Desejo vida longa a este trabalho pela importância da temática e pela sensível entrega do elenco ao contar esta história! Parabéns! Em diferentes categorias do Prêmio Márcia Ilha Marques já tenho várias indicações para este trabalho!

E a iluminação? E a iluminação? Show à parte! Seja marcando a troca das cenas, seja o foco no rosto dos atores, nos momentos estratégicos! Achei lindo aquilo!"


Por Helena Pinto:
"Assisti hoje à emocionante peça Os homens do triângulo rosa, criada pelos geniais Teatro Ao Quadrado. Lindíssima a interpretação do queridíssimo Marcelo Ádams. Maravilhosa trilha sonora e com interpretações brilhantes. Ainda que com curta temporada do Teatro São Pedro, os que perderam podem ver esse ESPETÁCULO a partir do dia 24 de outubro no Teatro Renascença."

Por Vera Pinto:
"Parabéns, Cia. Teatro ao Quadrado, pelo excelente trabalho, em Os homens do triângulo rosa, sobre o mais horrendo episódio da história e um preconceito que lamentavelmente, persiste até hoje, contra os homossexuais! Crítico, emocionante, reflexivo, como o teatro deve ser! Excelente texto, grandes atuações, figurino e cenário impecáveis! Os aplausos demorados que o digam!"
 

Por Rick Caldeira:
"Parabéns!
Ri, chorei e me emocionei muito... perfeito apenas!
Aplaudimos em pé neste sábado e foi pouco...MEGA RECOMENDO!
Inesquecível."



Por Renato Del Campão:
"Retornando de Os homens do triângulo rosa no Theatro São Pedro. Um soco no estômago e pertinente a cena contemporânea. Bravo Teatro Ao Quadrado!"


Por Mario Leão:
"Obrigado pessoal do Teatro Ao Quadrado pela espetacular peça de Teatro. Ainda comovido com o trabalho de vocês. E na esperança que o Ódio nunca vença no Brasil ou em qualquer lugar da Terra. Recomendo a peça Os homens do triângulo rosa pra todos os amigos e colegas."

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

100.000 VEZES VISTO

Comecei a escreveu meu blog em 2009, bastante despretensiosamente, considerando esta ferramenta virtual como mais uma possibilidade de falar das coisas que me interessam, divulgar meus trabalhos, etc. Agora, cinco anos depois, chegamos às cem mil visualizações das mais de 600 postagens que aqui estão. Que bom saber que há pessoas que o leem, e se interessam em saber um pouco mais sobre teatro, cinema, literatura...
Obrigado aos leitores, e que continuem visitando!

sábado, 25 de outubro de 2014

OS HOMENS DO TRIÂNGULO ROSA: crítica de Antônio Hohlfeldt

 
O crítico teatral Antônio Hohlfeldt, que escreve semanalmente para o Jornal do Comércio de Porto Alegre, assistiu Os homens do triângulo rosa e publicou sua crítica no dia 24/10/2014:
 
O melhor do ano, inequivocamente
 
"O palco do Theatro São Pedro viveu um fim de semana excepcional, quando ali foi apresentada a peça Os homens do triângulo rosa, criação dramatúrgica dirigida por Margarida Peixoto, a partir dos textos Bent, de Martin Sherman, Triângulo rosa: um homossexual no campo de concentração nazista, de Rudolf Brazda e Jean-Luc Schwab, e Eu, Pierre Seel, deportado homossexual, de Pierre Seel. Não tenho dúvida em afirmar que se trata do espetáculo mais importante da temporada, o melhor trabalho a que assistimos, dentre todas as produções de Porto Alegre que cumpriram ou cumprirão temporada entre nós neste ano. Um trabalho exemplar e inesquecível, de Margarida Peixoto, corajoso e fundamental. Ainda que o assunto central alegadamente seja a questão do modo pelo qual os nazistas trataram os homossexuais nos campos de concentração, na verdade, o tema principal é a maneira pela qual o amor pode surgir, afirmar-se e vencer, entre duas pessoas, mesmo nas piores circunstâncias de vida. Esta é a grande e emocionante lição, e por isso Os homens do triângulo rosa merece um lugar muito especial na relação de espetáculos a que tenho assistido ao longo dos anos. A ficha técnica menciona três textos, mas confesso que senti basicamente dois, aquele anterior ao campo de concentração, em que impera a descoberta do medo e a necessidade do esconder-se e, depois, aquele da sobrevivência no campo, quando a vitória do amor se sobrepõe a tudo o mais.
O trabalho de Margarida Peixoto não se afirma apenas pela escolha dos textos e do tema, mas também pelas soluções cênicas encontradas. Por exemplo, a sequência em que os dois personagens descobrem que, pela força e o efeito de suas palavras, podem vencer a extrema vigilância que paira sobre eles e se relacionarem amorosamente, é antológica e inesquecível. Mais que isso, ecoa na sequência final, após a morte de um deles, quando o outro assume sua identidade e sua parte na grande tragicomédia que então se desenrolava na Europa e em seus campos de concentração, com que o espetáculo se encerra.
Com duas horas de duração, que poderiam ser muito pesadas, diante do tema escolhido, ao contrário, o espectador, em que pese sinta-se oprimido pelo que assiste, segue com absoluto interesse e suspense o que ocorre no palco, de tal sorte que o espetáculo se desenrola sem perda de qualquer minuto de atenção. Contribui para isso a opressora cenarização de Yara Balboni, os figurinos de Antonio Rabadan, a trilha sonora de Marcelo Ádams, que desenvolveu novas letras sobre composições de Kurt Weill e inclusive sobre o hino nacional alemão, em outro momento verdadeiramente dramático da encenação. Destaque-se ainda a correta preparação corporal de Angela Spiazzi (que permite os atores transportarem tantas pedras em cena, e manterem-se, ainda assim, em pé, ao longo dos chamados três minutos de descanso), e mais a preparação vocal, a cargo de Ligia Motta (a atriz Gisela Habeyche) e a dos demais atores, de Marlene Goidanich. Destaque-se, ainda, na segunda parte, a humilde, mas decisiva interferência da pianista Elda Pires, que define todo o ritmo deste segundo momento da encenação.
Definitivamente, contudo, é o ator Marcelo Ádams, como o homossexual que faz qualquer negócio para sobreviver, mas que aos poucos descobre o verdadeiro amor, que merece todo o nosso respeito e nossas homenagens: é seu melhor trabalho. Adams incorpora profundamente o personagem, sofre com ele e se emociona com ele, emocionando a cada um de nós, na plateia. A seu lado, os dois parceiros, o que vive o bailarino e, enfim, o que vive o prisioneiro que acaba morrendo a seu lado. Mas, de modo geral, todos os demais intérpretes evidenciam uma perspectiva de grupo que raras vezes se vê, sobretudo em espetáculos desta natureza.
Em síntese, por tudo e em tudo, a Cia. Teatro Ao Quadrado, de Margarida Peixoto e Marcelo Ádams que, ao longo dos anos, tem-nos propiciado a descoberta de excelentes textos dramáticos, agora se superou. Que bom para nós."